Solos protegidos, produção garantida
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sexta-feira, 09 de maio de 2008
Raquel de Carvalho<br> Reportagem Local 
A eficiência na condução das lavouras faz a diferença na hora de contabilizar resultados. Conhecimentos científicos que geram tecnologias são fortes aliados de produtores, seja qual for a faixa ou atividade. Resta aos agricultores se adaptar e aplicar os novos conhecimentos, o que exige muitas vezes mudança de cultura e de comportamento.
Pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolvem estudos que podem mudar a vida daqueles que buscam melhor desempenho na pecuária, solucionando problemas, sobretudo de produtores da região noroeste do estado, que enfrentam dificuldades para manter os pastos em solos degradados pela falta de manejo.
A chamada integração lavoura-pecuária possibilita, ao mesmo tempo, boa oferta de alimentos ao gado e conservação e recuperação do solo. O sistema requer investimentos e eficiência nas duas atividades, mas aqueles que o adotaram se dizem satisfeitos com os resultados.
É o caso do produtor Antônio César Formighieri, de Maria Helena, município situado a 30 quilômetros de Umuarama. Sucesso na pecuária naquela região tem um simbolismo, já que o noroeste enfrentou problemas gravíssimos com solos degradados e erodidos nas décadas de 1970 e 1980. São emblemáticas as imagens das voçorocas com vários metros de diâmetro e profundidade que atingiram áreas rurais e urbanas da região.
Formighieri afirma que além de manter o solo da propriedade protegido e conservado, gasta muito menos para alimentar o gado, pois são dispensadas aplicações de adubos. ''A grande vantagem é que há disponibilidade de comida justamente de julho a outubro, quando há escassez de pastos'', afirma.
Porém, uma característica difere Formighieri dos demais produtores, o que é determinante no seu caso. O produtor é médico veterinário, assim como a esposa Eliane, usa conhecimentos técnicos e tem consciência dos benefícios do sistema. Ao contrário, os vizinhos e o próprio pai, que também tem uma área na região, não adotaram a prática e a diferença das condições da propriedade é visível.
Do mesmo modo, produtores como César Luis Vellini, de Jardim Olinda, e Paulo Guerra, de Cafeara, ambas no norte do estado, têm investido no sistema graças à formação profissional: ambos são engenheiros agrônomos e, assim, como Formighieri participam de um projeto coordenado pela Embrapa em parceria com a Cocamar. As primeiras experiências com a integração lavoura-pecuária foram colhidas por meio de um projeto desenvolvido pelo Iapar desde 1998 (ver matéria nesta edição).
A área destinada ao projeto é dividida em talhões, onde as culturas e pasto são alternadas. Num talhão, Formighieri plantou nabo e aveia, em outro milho, num terceiro, milho e braquiária (semeada entre linhas) e na última só capim. ''O pasto vira alimento para o gado e as culturas cobrem o solo, geram renda e a palhada depois da colheita protege o solo'', diz Paulo Coelho, agrônomo da Cocamar que acompanha o projeto.
Confiante, Formighieri estendeu a prática para outras áreas da propriedade. Numa área de milho já colhido, o técnico da Cocamar mostra o solo umedecido sob a palha, apesar do forte calor. ''A palhada evita a evapotranspiração'', diz Coelho, que enfatiza também os ganhos com o plantio direto adotado no sistema. Dos 150 alqueires da fazenda, o produtor destina 60 para a agricultura e o restante para a pecuária.
O produtor defende o sistema com os ganhos da sua propriedade. Enquanto na região, que tem forte aptidão para a pecuária, os animais ficam prontos para o abate em até quatro anos, na fazenda de Formighieri em cerca de 27 meses podem ser abatidos.
Segundo o produtor, o animal tem um ganho de peso diário de 500 gramas, com o qual é possível atingir uma média de 3.360 quilos por hectare ao ano. Outra vantagem é a ocupação da área de pasto. Enquanto no sistema convencional da pecuária extensiva coloca-se de 2 a 3 animais por hectare, a integração lavoura-pecuária permite 8 cabeças/ha.
Contrariando a aptidão da região, o produtor usa a soja para fazer a rotação e consegue bons resultados. ''Com milho e soja é possível colher três safras por ano'', diz Formighieri. O produtor comemora o rendimento da sua propriedade, quando compara com os vizinhos. Na última safra, por exemplo, os vizinhos conseguiram 90 sacas de milho por alqueire. As práticas adotadas por Formighieri resultaram em 270 sacas por alqueire.
Uma área mantida em Umuarama pela Emater, Iapar, Instituto Ambiental do Paraná (IAP) demonstra os benefícios da integração. A unidade mostra a recuperação de uma área degradada com a rotação de culturas, pasto e eucalipto. A experiência tem o apoio da prefeitura, e associação dos agrônomos de Umuarama.


