Jota Oliveira
De Londrina
Aquele inseto, conhecido como tamanduá-da-soja ou bicudo (não confundir com o bicudo-do-algodoeiro), foi identificado no Paraná em 1983, mas somente nesta safra vem preocupando, porque sua população dobrou, informa a pesquisadora Clara Beatriz Hoffmann Campo, da Embrapa Soja, sediada em Londrina.
No Paraná, diz Clara Beatriz, o tamanduá vinha, há 17 anos, causando problemas em alguns municípios, entre eles, Guarapuava, Pinhão, Mauá e Tamarana, ‘‘mas nunca foi muito importante’’. Nessa distribuição da praga pelo Estado, já se notava um hábito da espécie, a preferência por regiões mais frias, e logo onde tem vários campos de sementes. Agora, no entanto, devido à seca, vem-se expandindo e atacando lavouras de São Paulo e Mato Grosso.
A pesquisadora observa que ‘‘o tamanduá está destruindo a soja no início do desenvolvimento, o que provoca diminuição da população de plantas na lavoura’’. A população normal de pés de soja varia de 350.000 a 400.000 mil por hectare. Se essa população diminui, aparecem ervas daninhas, que são outro problema da agricultura.
ConcentraçãoClara Beatriz comenta que nos anos anteriores os danos provocados pelo tamanduá ou bicudo eram menores, porque o ataque ocorria espaçadamente nas lavouras plantadas desde o final de outubro até meados de dezembro. Como houve pouco plantio de soja até o início de dezembro, a concentração do inseto está muito maior.
Além disso, devido à escassez de chuva na época propícia para a semeadura do milho, alguns produtores substituíram o milho pela soja. ‘‘Esse é outro fator que pode ter provocado o aumento da praga este ano. O milho não é hospedeiro do tamanduá e quando plantado em pelo menos 1/3 da lavoura, provoca a morte de muitos insetos’’, explica a pesquisadora.
HábitosO tamanduá-da-soja tem porte grande para esse tipo de inseto e é um raspador. Alimenta-se e se acasala à noite; de dia fica escondido na palhada sob a lavoura, onde se protege do calor, e sua cor também afugenta predadores, como os pássaros, porque sugere a presença de toxinas. E, como ainda está se adaptando à soja, seus parasitóides também ainda não se instalaram nela.
Especializado em leguminosas, o tamanduá prefere o feijão e como essa é uma cultura mais sensível, pode causar perdas totais. Na soja o macho raspa o caule das plantas 15-20 dias após a emergência; mais tarde a fêmea faz um anilamento no caule, para pôr os ovos; finalmente, as larvas formam um caroço caroço na haste, a galha caulinar. ‘‘Essas galhas prejudicam a produção da planta e também podem ressecar a haste, tornando a planta mais suscetível à quebra. Por isso, é o primeiro inseto galhador na soja’’, informa a pesquisadora da Embrapa Soja. O tamanduá ocorre mais em reboleira, porém não intensa como a reboleira do percevejo marrom.
RotaçãoClara Beatriz lembra que, sendo específico de leguminosas, o tamanduá ou bicudo pode ser controlado pela rotação de culturas. O ideal seria rotacionar com gramíneas, como o milho. Tanto que ele propagou-se mais nesta safra (a população da praga dobrou), porque no lugar do milho foi plantada soja.
O controle natural do tamanduá é difícil, mas o controle químico também é, pelo mesmo motivo, o hábito fugidio. Clara Beatriz diz que as aplicações devem ser dirigidas para o caule da planta ou para o chão, pois o inseto está ali na palhada, escondendo-se do calor. Se as aplicações forem feitas dessa maneira, poderão atingir o bichinho na palha, durante o dia.
Ainda é cedo para calcular as perdas provocadas pelo inseto. A forma de controle do tamanduá-da-soja exige que o produtor siga à risca um conjunto de medidas. ‘‘É preciso implantar o Controle Integrado de Pragas, como está previsto na Recomendação Técnica para a Cultura da Soja, implementando principalmente um programa de rotação de culturas com plantas que não sejam hospedeiras do tamanduá, como o milho, o sorgo e o girassol’’, diz Clara Beatriz.
A pesquisadora informa ainda que nesta safra o tamanduá ou bicudo apareceu mais nos municípios onde já ocorria normalmente sem causar problemas sérios, como Mangueirinha e Ponta Grossa. Nesses municípios, agora o ataque chega ao dobro do normal. Também aparece muito nas regiões onde ocorria marginalmente, como no município da Lapa.
Circular técnicaOs aspectos biológicos do tamanduá, seu comportamento. controle químico e mecânico; época de semeadura e outros temas sobre o assunto estão sendo abordados na circular técnica ‘‘Aspectos Biológicos e Manejo Integrado do Sternechus subsignatus na Cultura da Soja’’.
A publicação estará disponível para a assistência técnica, produtores e instituições de pesquisa ainda no primeiro trimestre deste ano’’, afirma Clara Beatriz, uma das autoras da circular técnica.Estiagem atrasa plantio da soja no Sul do País, inviabiliza safrinha de milho e concentra ataque do Sternechus subsignatus
Estrago causado pelo tamanduá-da-soja em lavoura paranaenseO tamanduá ou bicudo da soja, nova preocuação no campoClara Beatriz, pesquisadora da Embrapa Soja

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