Lenira TerraInteresseComitiva norte-americana visita a microbacia do Rio do Campo, junto com pesquisadores da EmbrapaA ausência de agrotóxicos na soja cultivada pelos produtores da microbacia do Rio do Campo, em Campo Mourão, continua rendendo bons resultados. Mais de 10 anos depois de terem iniciado o controle biológico de pragas, os sojicultores da área agora começam a ser procurados por comitivas estrangeiras interessadas nos métodos utilizados no local e até mesmo na compra do produto. ‘‘Importadores de países desenvolvidos se interessam pela soja sem agrotóxico porque atende consumidores mais exigentes’’, frisa o secretário municipal de Agricultura de Campo Mourão, Márcio Nunes.
Somente este ano, a área já foi visitada por pesquisadores e agricultores dos Estados Unidos e da Austrália. Isso sem contar os produtores mineiros e goianos que estiveram na microbacia para conhecer de perto o processo que elimina a utilização de produtos químicos na lavoura. A notícia mais animadora, no entanto, veio do outro lado do mundo. Japoneses que visitaram a área ofereceram até 30% acima do preço praticado no mercado nacional pela soja produzida na microbacia do Rio do Campo.
A área cobiçada pelos estrangeiros tem 7.076 hectares, dos quais 4,5 mil são ocupados pela soja. O restante é destinado à pecuária de leite. Na área de soja, a expectativa é que os 74 produtores colham este ano mais de 250 mil sacas. O ‘‘segredo’’ do sucesso da microbacia começou em 1985, quando os agricultores da área adotaram o Baculovírus anticársia para combater a lagarta da soja. Eles utilizaram a tecnologia desenvolvida pela Embrapa, na qual a lagarta come as folhas da soja contaminadas com a aplicação do vírus e morre até nove dias depois, soltando mais vírus no ambiente e ampliando o controle.
VespinhaHá três anos, a microbacia deu outro passo decisivo para a eliminação dos agrotóxicos. Adotou o controle do percevejo da soja através do Trissolcus basalis, a ‘‘vespinha-da-soja’’. Para tanto, a comunidade rural de Alto Alegre chegou a instalar o primeiro laboratório comunitário para multiplicação do predador. A parceria envolveu a Prefeitura e a Associação de Moradores da Bacia do Rio do Campo, além de outros órgãos e empresas privadas. Desde então, o laboratório já produziu e soltou mais de um milhão de vespinhas no campo.
A vespinha, que tem pouco mais de um milímetro de comprimento, desenvolve-se dentro dos ovos do percevejo, se multiplica em 10 dias e cada fêmea chega a parasitar até 250 ovos de percevejo. A vespinha é encontrada normalmente no ambiente, mas em quantidade insuficiente para controlar o ataque dos percevejos. É aí que aparece a importância do laboratório que produz o inseto. Graças a ele, é possível soltar grandes quantidades da vespinha em determinadas fases da lavoura.
Água limpaO vanguardismo da Microbacia do Rio do Campo, no entanto, não está apenas na substituição de agrotóxicos pelo controle biológico. Em 1978, a região já tinha virado notícia nacional com a pioneira implantação do manejo de solos e águas no Paraná. Para recuperar o ambiente produtivo, foi usado o sistema de terraceamento mecânico, adequação de estradas e o reflorestamento ciliar. Nos anos 80 o trabalho foi intensificado com o plantio direto e o controle da poluição através da construção de abastecedouros comunitários.
Quem primeiro sentiu os efeitos desse trabalho foi a Sanepar, que abastece Campo Mourão com água do Rio do Campo. Relatórios da Estação de Tratamento da companhia mostram que os índices mensais de turbidez da água captada no rio caíram de 285 NTU (Nephelomepric Turbidity Unit) em 1982 para cerca de 30 NTU. Isso permite a redução da aplicação do sulfato de alumínio na água e, consequentemente, baixa os custos do tratamento da água.
Outra novidade entrou em operação no ano passado, depois de um convênio firmado entre a Prefeitura e o Ministério do Meio Ambiente. Alunos do Colégio Agrícola, mantido pela Faculdade Estadual de Campo Mourão (Fecilcam), passaram a fazer vistorias semanais nas propriedades onde é cultivada a soja. Os dados são enviados à Emater, que processa as informações e repassa para empresas de assistência e cooperativas para utilização mais segura de produtos biológicos e fisiológicos.

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