São Paulo - Na safra 2012/2013, produtores brasileiros de soja poderão ter acesso à uma soja tolerante a herbicidas, desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com a empresa química alemã Basf. A nova cultivar, que já foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio) no final do ano passado, atende as leis de biossegurança para o meio ambiente, agricultura, saúde humana e animal no Brasil e é o primeiro cultivo geneticamente modificado desenvolvido no País.
Foram mais de dez anos de pesquisa em laboratório e no campo para o desenvolvimento do sistema de produção nomeado Cultivance, que combina variedades de soja tolerantes a herbicida com produtos de amplo espectro da multinacional, da classe das imidazolinonas, desenvolvido sob medida para as condições regionais.
Pesquisadores de ambas as empresas destacaram que o Cultivance oferecerá aos agricultores um sistema de controle capaz de gerenciar, de maneira eficaz, um grande número de plantas daninhas, inclusive proporcionando flexibilidade ao produtor rural, ''além de ser ecoeficiente, pois contribui para a diminuição no número de aplicações e, consequentemente, no uso de máquinas, reduzindo também os custos de produção'', completou o vice-presidente de Proteção de Cultivos para a América Latina da Basf, Walter Dissinger. Ele acrescenta que a combinação será o primeiro produto biotecnológico comercializado em nível global pelas empresas.
A expectativa dos parceiros é conquistar de 15% a 20% de participação nos hectares transgênicos nacionais, num prazo de seis anos. Para Dissinger, o novo produto terá um papel importante como alternativa: ''A ideia não é dominar o mercado, mas participar'', declarou o vice-presidente, lembrando que processo de royalties será dividido meio a meio entre Basf e Embrapa. ''Estamos na fase inicial para começar a produzir sementes.''
Elibio Rech, pesquisador da Embrapa, explicou que o processo de fabricação da cultivar agregou os conhecimentos em clonagem de genes da multinacional à tecnologia de produção de novos cultivares de soja da Embrapa. ''Foram mais de 2 mil plantas transgênicas, levadas ao centro de melhoramento da Embrapa Soja, em Londrina, onde foram testadas até gerar a planta-mãe'', descreveu Rech, lembrando que essa etapa levou de três a quatro anos para ser finalizada. ''Depois foram vários anos de melhoramento para produzir variedades adaptadas às diferentes regiões de cultivo.''
Conforme o gerente de biotecnologia da Basf, Luiz Louzano, a partir da planta-mãe foram produzidas sementes para uma série de estudos de biossegurança, realizados em campo, em casa de vegetação e em laboratório. Louzano citou a caracterização molecular, a segurança da proteína, a segurança alimentar e a avaliação agronômica como etapas básicas para a aprovação da CNTBio. No total, foram investidos US$ 20 milhões nos dez anos de pesquisa, sendo metade destinados à regulamentação.
Ainda de acordo com Louzano, o valor de venda da semente está em estudo, ''mas será competitivo''. ''A ideia é habilitar pequenos e grandes produtores de semente para multiplicar a cultivar e criar mecanismos para recuperar parte do investimento, sem penalizar o produtor'', completou Walter Dissinger. ''Este novo sistema é uma forma inteligente de unir os conhecimentos nacional e internacional, e o capital público ao privado, para dar competitividade ao agronegócio nacional'', opinou o presidente da Embrapa, Pedro Arraes, que com o Cultivance quer ''garantir qualidade e evitar a monopolização de qualquer elo da cadeia produtiva''.
Para o pesquisador Elibio Rech, como a agricultura é a base da exportação brasileira, a pesquisa precisa duplicar a capacidade de produção nacional nos próximos 30 anos, visando o aumento da competitividade brasileira. Neste contexto, o processo regulatório é de suma importância para a conquista do mercado internacional, principalmente a China.
''Temos duas exigências: como a soja não tem importância na Europa, a regulamentação lá deve atender apenas o consumo humano e dos animais, enquanto que na Argentina, deve ser voltada à alimentação e ao cultivo. Já na China, a preocupação é apenas com a exportação'', detalhou Luiz Louzano, destacando que os principais clientes para a nova soja, além do Brasil, serão Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai.
A multiplicação começará em 2012, a partir de produtores de semente cadastrados em fundações de apoio à pesquisa, como a Fundação Meridional, no Paraná. Já na safra seguinte, 2012/2013, a nova cultivar será disponibilizada aos produtores de grãos.
- A jornalista viajou a convite da Basf

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