Soja, líder em agronegócios
Jota Oliveira
O agronegócio oleaginosas movimenta por ano mais de US$80 bilhões em todo o mundo. A soja em grão e seus subprodutos - farelos, óleos - participaram com 54% (153 milhões de toneladas) dos 274 milhões de toneladas de oleaginosas tiradas dos campos do Planeta em 1988.
Outras oleaginosas importantes podem ser comparadas com a soja. Por exemplo, a colza (segundo lugar entre as oleaginosas, com 13% da produção mundial), que fornece 37% de óleo e 60% de farelo (com 32% de proteína), enquanto a soja tem 19% de óleo e gera 79% de farelo (46% de proteína). O farelo é um dos principais subprodutos da soja, que fornece 60% da produção mundial. Como fonte mais barata de proteína, esse farelo é o mais utilizado na alimentação de aves, suínos e peixes, devido aos altos índices de conversão de peso, conforme diz Stephen Geld, diretor da Comércio e Indústrias Brasileiras Coinbra S/A, in Agroanalysis, junho/98
No ano passado o presidente do Sindicato da Indústria de Óleos Vegetais do Rio Grande do Sul, José Zilio, diretor da Ceval Alimentos, contou que a soja não foi trazida ao Ocidente para alimentar pessoas, mas para a produção de dinamite. ‘‘Em 1908 a indústria química inglesa produzia milhares de toneladas de dinamite, para atender a demanda imposta pela construção do Canal do Panamá. Não havia óleo de linhaça e algodão suficientes para gerar a glicerina necessária. O óleo de soja foi a alternativa emergencial. Entre 1900 até o início da 2ª Guerra Mundial, a população rural pouco dependia dos alimentos industrializados. A demanda estava aquecida para produtos manufaturados não alimentícios, como os automóveis e seus materiais de revestimento e moldagem (resinas, plásticos e tintas). Havia também mercado para explosivos (utilizados na abertura de estradas e minas) e para os eletrodomésticos que começavam a substituir a força física dentro de casa’’, historiou Zilio.
Hoje, entre os subprodutos da soja predominam os farelos, base dos alimentos mais consumidos do Mundo. Para Zilio, o futuro das indústrias processadoras de soja, no Brasil, terá como base tecnologia, competitividade operacional e variedade de subprodutos. E a proteína deverá liderar a demanda. Alimento, um fim mais nobre do que dinamite.
Porém, o futuro - não apenas das exigências do mercado, mas também do ponto de vista científico - depende de ações que já estão sendo discutidas. Muitas delas serão propostas e debatidas no Congresso Brasileiro de Soja, que começa segunda-feira em Londrina e traz muitos dos mais entendidos especialistas na cadeia produtiva da soja - desde a pesquisa ao plantio, à colheita, à industrialização, à exportação.
Entre os temas ‘‘do futuro’’, chama atenção a soja transgênica, que está sob um impasse em todo o mundo - a transgenia é negativa ou positiva? Ela precisa ser pesquisada por longo tempo, para se ter certeza de que não causará prejuízo à saúde dos animais e das plantas? Outro assunto polêmico, objeto de discussões também em todo o mundo: a globalização. A quem interessa essa estratégia, imaginada além das fronteiras das nações fornecedoras de matérias-primas? Essa é também uma boa idéia para todos, não apenas para algumas nações interessadas em garrotear outras?
A soja, que não ‘‘gosta’’ de ser chamada de feijão-soja, porque não é feijão, será literalmente dissecada em centenas de trabalhos encaminhados por cientistas brasileiros e do Exterior. No congresso será mais uma vez difundida, entre outras virtudes desse grão, esta grande vantagem: ‘‘A soja é alimento completo, que pode contribuir para a redução da mortalidade por desnutrição...’’ E tem sido usada para isso, como alimento rico em proteínas (‘‘duas vezes mais proteínas do que a carne de vaca’’). É rica também em hidratos de carbono, gordura, fibras, vitaminas e minerais (sódio, potássio, fósforo, ferro, magnésio e zinco), além de vitaminas - caroteno, tiamina (vitamina B1), riboflavina (vitamina B2), niacina (vitamina B3), ácido nicotínico e ácido ascórbico.
No centro dos trabalhos científicos, dos debates e palestras, no congresso que começa segunda-feira, estão a soja e todo o sistema gerado por ela, o chamado agronegócio da soja, ou cadeia produtiva da soja. Porém, o tema central (‘‘Desafios e Soluções do Complexo Soja no Brasil’’) tem amplitude maior, porque coloca em análise os temas mais discutidos no momento, que interessam ao mundo todo: a transgênese e a globalização.
O autor é editor da Folha Rural.

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