Sofisticação reduz rentabilidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de novembro de 1997
Cláudia Barberato 
Arquivo FolhaDependênciaAgrônomo afirma que a alimentação no cocho foi priorizada, em detrimento do pastoreio, quando deveria ser o contrárioO agrônomo e professor de Zootecnia da Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo (RS), Humberto Sório, afirma que a adoção de tecnologias muito sofisticadas, indicadas por instituições de pesquisa e universidades, a qualquer preço, em busca do aumento de produção, foi e está sendo a causa da insolvência de produtores e cooperativas em todo o País.
Sório, que também é consultor privado, acredita que a modernização em busca de produção, fez com que hoje se tenha duas categorias de produtores no Brasil: os sem-terra e os com dívidas. O produtor, especialmente o leiteiro, foi induzido a usar tecnologias de aumento de produção que acabaram encarecendo seus custos e inviabilizando a atividade, acrescenta.
Quanto sobraFrequentemente Sório tem falado a produtores sobre o pastoreio voisin, método que ele defende como ideal para recuperar a rentabilidade na pecuária, leiteira ou de corte. Para montar o atual processo produtivo proposto, segundo Sório, foi preciso que o produtor gastasse altos valores em máquinas, instalações e alimentação dos animais. Para o produtor interessa é quanto lhe sobra do processo produtivo por ele implantado, e não quanto produziu.
Na pecuária leiteira, o atual sistema de produção, defende Sório, foi concebido a partir da falsa suposição de que a vaca deveria produzir as máximas quantidades de leite e os custos daí derivados seriam amplamente compensados. Esqueceu-se da condição natural de herbívoros pastadores dos bovinos, com alta capacidade de ingestão de pasto verde por eles colhido diretamente. Priorizou-se a alimentação no cocho em detrimento do pastoreio, quando deveria ser o contrário.
Mais movimentação de alimento e esterco significa maior custo, segundo o agrônomo. Ele garante que quanto mais a vaca pastar, menor será o custo do litro de leite que ela produzirá. Uma vaca, com abundante forragem de qualidade disponível (tenra, nutritiva e saborosa), pode ingerir em regime de pastejo mais de 80 kg de massa verde por dia, o que equivale a mais de 16 kg de matéria seca, suficiente para a produção de 18 kg de leite. O custo de produção de tal sistema, garante o agrônomo, é mais baixo do que um outro baseado no confinamento dos animais em instalações custosas e anti-higiênicas.
CompetitividadeAs tecnologias ditas avançadas, segundo Sório, aumentaram a produção de leite, seja por unidade de área ou por propriedade, mas não foram capazes de proporcionar ao produtor a sua grande meta, a lucratividade. Além de tudo, o produtor atolou-se em dívidas e muitas de suas cooperativas caíram na insolvência.
Sório defende uma mudança na tecnologia de produção, já que a concorrência internacional, em especial a dos parceiros do Mercosul, pode colocar à disposição do consumidor brasileiro produtos a preços inferiores aos custos de produção nacional. Se usarmos nossas excepcionais condições materiais, o País será um grande exportador mundial de leite e seremos competitivos em preço em qualquer circunstância, sem o escuso expediente dos subsídios, de que a Europa se vale para premiar a ineficiência de seus produtores.
Pequeno lucroNa pecuária de corte, quanto mais aumenta o nível de produção, mais aumenta o prejuízo do produtor, opina Sório. Ele cita exemplo publicado no Anualpec 97, da FNP - Consultoria e Comércio, de São Paulo, sobre a relação de rentabilidade em propriedades de baixo, médio e alto nível de tecnologia.
Numa fazenda de 1.114 hectares (ha) de pasto tanzânia alcançou-se produtividade de 187 quilos (kg) de peso vivo por ha no ano; lucro líquido de U$54 mil, com U$48,50 por ha e rentabilidade de 2,18% sobre o investimento. Na propriedade de média adoção de tecnologia, com 1.978 ha de brizantha, conseguiu-se produtividade média de 117 kg de peso vivo por ha, com lucro de U$13,44 por ha e rentabilidade de 1,49% a partir de lucro total de U$26.580. Na propriedade onde a adoção de tecnologia foi mínima, sem uso de adubos e muitos insumos, para a cria de gado de corte, conseguiu-se ganho de 42 kg de peso vivo por ha, mas a rentabilidade somou 3,62% sobre o lucro líquido de U$72.586 ou U$22,33 por ha.
Quanto mais tecnificada, com uso de insumos e máquinas no processo produtivo, vai-se tendo lucro menor por hectare, garante Sório. Isto significa, segundo ele, inviabilizar pequenas e médias propriedades para a atividade de corte, considerando que a maior parte das propriedades brasileiras hoje não têm grandes áreas, ficando na média de 500 a 700 ha.
Produtores que adotaram o sistema voisin de pastagem, em regiões no Centro-Oeste e Sul do Brasil, assegura o agrônomo, estão conseguido bons níveis de produção. Os números chegam a um ganho de peso de 300 a 400 kg; e excepcionalmente, em algumas propriedades, os animais já chegaram a 500 kg de ganho de peso vivo. Com investimento baixo e insumação mínima. A rentabilidade tem ficado entre US$140 a US$170 por ha, líquidos. O sistema voisin determina uso de menos insumos e otimização de recursos naturais, com baixo custo e alta rentabilidade.
AproveitamentoNos últimos anos, de acordo com Sório, acreditou-se erroneamente que as pastagens só seriam capazes de produzir elevados volumes de matéria seca por hectare se recebessem adubações pesadas de N-P-K todos os anos, não importando o manejo.
O pastoreio voisin, defende o agrônomo, respeitando a fisiologia das plantas forrageiras e os tempos de ocupação e repouso dos piquetes, variáveis a partir de clima e solo de cada estação do ano, tem proporcionado produções de matéria seca superiores a 16 toneladas/hectare/ano, na maioria absoluta dos casos sem emprego de fertilizantes solúveis.
O trabalho com voisin, a aproveitando os recursos da propriedade, representa um sistema de criação mais sustentável e viável nas condições atuais de mercado. O modelo atual, baseado na reforma de pastagens e no manejo contínuo, não atende mais as necessidades dos pecuaristas, espremidos entre os crescentes custos de produção e a queda relativa do valor do produto.
Serviço:Humberto Sório é o palestrante do curso sobre pastoreio voisin, neste final de semana, no Sindicato Rural de Botucatu (SP). Outras informações no telefax (014) 821-4991, na Orientação Agroecológica, empresa que está organizando o curso.


