Apesar de vestir com certa elegância a saia-justa costurada pelo discurso ácido de Omar Mazzei Guimarães, um dos primeiros presidentes da Sociedade Rural do Paraná, durante a inauguração do Parque de Exposições Ney Braga, em 1965, o presidente Marechal Castelo Branco e as demais autoridades militares e civis, estremeceram no palanque à manifestação contra a política agrícola do governo.
Rodeado pela importância de Londrina no cenário econômico nacional na década de 60, em que a cultura cafeeira era a locomotiva que puxava o desenvolvimento da região, Mazzei ultrapassou os limites da repressão ao defender os interesses da agricultura paranaense.
Enquanto a poeira da lida nos terreirões de café foi dissipada pela queda na produção - cujo golpe maior teria sido a geada de 1975, que arrancou o título de Londrina de ''capital mundial'' da cultura cafeeira -, personalidades, a exemplo de Mazzei, se tornaram raras.
Na paisagem da cidade, cada vez mais urbana, o Teatro Ouro Verde ainda ostenta em sua fachada o símbolo daqueles anos dourados em que o café e a representatividade londrinense eram cultivados pela coragem de lideranças locais - uma cultura que também parece ter se perdido no tempo.
Nascido em Bebedouro (SP), em 1917, Mazzei desembarcou em Londrina, em 1938. Além de empresário, o pioneiro abriu fazenda no meio da mata, tornando-se líder ruralista até morrer, aos 71 anos de idade.
Personalidade refinada pela polêmica, Mazzei foi um dos primeiros a defender a separação do Norte do Estado. Ele também conquistou espaço na história londrinense pelo espírito empreendedor.
Entre outras realizações, transferiu para o Parque de Exposições Ney Braga a sede da antiga Associação Rural de Londrina, que funcionava numa sala no centro da cidade, onde a Avenida Paraná reinava como termômetro da economia, concentrando as corretoras de café.
Com a mudança, a exposição agropecuária e industrial, realizada no antigo Jóquei Clube, também passou a acontecer no Parque de Exposições Ney Braga, que, na ocasião da visita de Castelo Branco, assistiu ao discurso polêmico de Mazzei contra a política agrícola do governo.
Surpreendendo o aparato de segurança, incapaz de prever que, em plena ditadura militar, a primeira visita de um presidente a Londrina tivesse imprevistos maiores do que a quebra do protocolo pelo marechal (que preferiu fazer o percurso a pé pela Avenida Paraná, Praça Willie Davids e a Rua Hugo Cabral), a cena protagonizada por Mazzei teve calibre suficiente para se tornar quase uma lenda.

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