A agricultura brasileira realmente não tem outra saída além de esperar que a sensibilidade do governo federal determine mudanças na taxa cambial e permita aumento do dólar para remunerar as exportações. Essa é a luta dos milhares de agricultores brasileiros que participaram no início da semana da ''Mobilização do Campo'', realizada em vários pontos do País. Em Londrina uma multidão de mais de 10 mil pessoas se reuniu no Parque de Exposições Ney Braga.
Segundo dados fornecidos pelo Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), na quinta-feira, dia 2, a saca de soja foi comercializada na Bolsa de Chicago por US$ 15,10. O preço, segundo o assessor técnico e econômico da Ocepar, Robson Mafioletti, continua acima da média histórica do mercado internacional. ''O problema para os brasileiros é que a cotação da moeda americana está muito abaixo do que poderia representar lucratividade'', explica.
O preço médio de comercialização do grão no mês de maio foi de R$ 27,81 a saca de 60 quilos (Kg). No mesmo período do ano passado essa média foi de R$ 45,89. ''O mercado da soja, no ano passado, foi atípico e não deve ser considerado como referência na análise econômica. Mesmo assim, a redução do preço médio é de 65%'', alerta.
A descapitalização dos produtores que plantaram a última safra de verão com recursos próprios e o não pagamento das dívidas por quem utilizou linhas de financiamento devem trazer influências negativas para a safra 2005/2006. Durante o manifesto, o presidente da Ocepar, João Paulo Koslovski, disse ser muito difícil estimar a produção brasileira do próximo verão. ''Estamos prevendo dificuldades enormes principalmente pelos parcos recursos para a agricultura e sobretudo o nível de tecnologia que será adotado'', afirmou. A análise é lógica: com menos recursos o agricultor tende a utilizar uma menor tecnologia e, com isso, a produtividade das lavouras poderá ser afetada.
Koslovski aponta para um reflexo direto nas exportações, tendo como base o complexo soja (grão, óleo e farelo), mais trigo e milho que, no ano passado, foram responsáveis pela exportação de R$ 31 bilhões. ''Este ano se tivermos o mesmo volume de produtos com os preços atuais essa cifra cai para R$ 20 bilhões. São R$ 11 bilhões a menos de receita só nos 3 produtos, um peso muito forte em toda a balança comercial, que deverá ser sentida, especialmente, no segundo semestre desse ano'', alerta.
Já o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Ágide Meneghete, é categórico: ''ou o governo libera recursos para cooperativas, tradings e agricultores, ou teremos dificuldade para plantar a nova safra de verão''. Ele destaca que a safra de inverno não está plantada regularmente, pois a seca não permitiu um ''plantio normal''. Segundo ele, muitos produtores que acreditaram em mudanças no comportamento do clima, ''plantaram na poeira e perderam também a safra de inverno''. ''Se as empresas agropecuárias têm dificuldade de repactuar a safra passada de verão como vai ter limite para financiar a safra futura de verão?'', questiona.
O senso comum das lideranças do agronegócio, infelizmente, não é só sobre o papel único do governo na solução da crise agrícola, mas também de que ela afetará, muito em breve, toda a sociedade. ''agricultor sem renda significa menos emprego na cidade, menos emprego na indústria e menos dinheiro no comércio'', sentencia Ágide Meneghete.

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