Congonhinhas - À distância, a beleza do vale ondulado na área rural de Congonhinhas, no Norte do Paraná, esconde o drama vivido por cerca de 60 famílias que em 2006 conseguiram financiamentos individuais pela linha de Consolidação da Agricultura Familiar (CAF) do Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF) para aquisição de quase 308 alqueires (cerca de 1,3 mil hectares) da Fazenda Congonhinhas. O projeto original do assentamento atenderia 200 famílias.
Cada família obteve R$ 40 mil para compra de lotes de um alqueire e mais uma quarta parte, outros R$ 18 mil do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familia (Pronaf), além de R$ 1,5 mil por família - um total de R$ 300 mil - para garantir assistência técnica por três anos. Os recursos foram liberados após apresentação de um projeto formatado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Congonhinhas. A intenção era produzir amora para alimentar bicho-da-seda e café, mas cinco anos após a empreitada a situação no assentamento é dramática. O exemplo não é regra no Paraná mas serve de alerta ao comprovar que, se o processo não for muito bem conduzido desde o início, são grandes as chances de problemas.
O agricultor Jair Aparecido da Silva apostou no projeto e hoje teme pelo futuro. Recém-eleito presidente da associação dos assentados, Silva denunciou que o cultivo de amora nunca foi implantado porque os agricultores não ''dominavam a cultura''. Os barracões apodreceram e caíram com o tempo. As tulhas, em vez de servir para a produção, foram usadas como casas. Os cafezais, por sua vez, deram um pouco mais de resultado mas, no longo prazo, as geadas, a ausência completa de assistência técnica, a carência crônica de água até mesmo para consumo humano e a falta de defensivos e insumos, invibializaram qualquer chance de sucesso. O agricultor Jorge Gonçalves, por exemplo, teve cinco mil pés destruídos neste ano. ''Foi tudo perdido'', lamentou.
Com isso, quase a metade das famílias assentadas pode perder seus lotes por falta de pagamento das três últimas parcelas anuais do financiamento. Cada uma tem valor de R$ 2,6 mil. Com isso, os recursos do Pronaf foram bloqueados.
Lima afirmou ainda que cerca de 80 lotes teriam sido revendidos, o que não é permitido, e que o próprio sindicato teria estimulado as negociações. Entre os compradores estariam um juiz, um policial militar e uma diretora de escola.
A maioria, porém, juntou economias para concretizar o sonho do acesso à terra, como o casal Maria Helena da Silva e Almiro Antônio de Campos e os nove filhos. Pagaram R$ 5 mil pelo lote, comprado de um deficiente físico, e plantaram 7 mil pés de café. ''Usamos tudo que a gente tinha. Queremos produzir e tirar nosso sustento dessa terra'', garantiu Maria Helena, enquanto demonstrava que pagou pelo lote mas ainda não tem a escritura. Há três meses, Maria das Graças Costa e o marido José Rodrigues da Costa saíram de Curitiba e pagaram R$ 21,5 mil por um lote no assentamento, que praticamente nem água potável dispõe. ''Ninguém avisou que a gente não podia comprar'', garantiram. Agora, temem investir na produção e perder tudo. (L.A.)

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