Simulação orienta o produtor
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de janeiro de 1997
Cristina Côrtes 
Mário CesarIntegraçãoO pesquisador Rogério de Farias diz que os modelos integram informações e facilitam a decisão do produtorO Paraná começará na próxima safra de inverno a utilizar os Modelos Matemáticos para Simulação de Culturas, desenvolvidos por uma equipe de pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Esta tecnologia será utilizada primeiramente na cultura do trigo no próximo inverno, e orientará os produtores para as condições de umidade de solo para esta cultura no Estado.
O pesquisador Rogério Teixeira de Farias, da área de Engenharia Agrícola do Iapar, explica que estes modelos matemáticos são um conjunto de equações colocados numa sequência lógica para descrever a resposta das plantas aos diversos fatores de produção, seja a adubação, água, temperatura, espaçamento e época de plantio, entre outros.
Nos países desenvolvidos, os Modelos Matemáticos para Simulação do Crescimento de Culturas já vêm sendo utilizados há aproximadamente vinte anos. E, no Brasil, a instituição de pesquisa que está mais adiantada nestes trabalhos é o Iapar, que os utilizará na próxima safra. Para este ano foi firmado convênio entre Iapar e Ministério da Agricultura visando o aprofundamento destes estudos, com o objetivo de aprimonar e refinar o trabalho de zoneamento agrícola no País.
Para que servemEm todas as áreas de conhecimento científico e tecnológico são construídos modelos que simulam prováveis situações reais, e que servirão de orientação para tomadas de decisões. Um exemplo para entender melhor: quando um avião cai e os técnicos procuram as causas para evitar novos acidentes, eles têm que simular, criar modelos de estudo, porque não é possível permitir outras quedas para chegar às respostas desejadas.
O pesquisador explica que, nos sistemas biológicos, esta tarefa é mais complexa porque as variantes não inúmeras, mas com a popularização da Informática, ficou mais facilitada a difusão destes modelos.
Nos sistemas de produção agrícola, a modelagem utiliza o conhecimento já existente, para estimar a produtividade e rentabilidade de uma cultura com base nos dados históricos de solo e clima, indicando qual a prática ou manejo que dará maior retorno para o produtor.
Além de orientar a decisão do que plantar e onde plantar, a modelagem faz o acompanhamento da cultura, através do monitoramento agroclimático. Rogério informa que estes conhecimentos serão aplicados a princípio em escala estadual, determinando as regiões mais aptas para as principais culturas que são a soja, milho, trigo e feijão.
TendênciasA maioria das recomendações de pesquisa feitas hoje nos Estados Unidos são com base nos modelos matemáticos. Atualmente, a escassez de recursos e a urgência nas tomadas de decisões de quem vive da agricultura, exige respostas mais rápidas dos pesquisadores, comenta Rogério.
Segundo o pesquisador, a modelagem matemática não tem aplicação apenas na pesquisa, onde sua principal vantagem é agilizar resultados e economizar investimentos. Ela também será importante ferramenta na distribuição de recursos de crédito rural e principalmente no seguro agrícola.
O exemplo citado por Rogério é que o crédito rural oferece taxas de seguro de acordo com o risco da cultura, e a modelagem indicará qual a cultura que oferecerá menos riscos.
Os modelos matemáticos são uma simplificação do sistema de produção agrícola. E têm três funções: didática, que serve para entender o processo de produção; pesquisa: otimiza certas práticas, como por exemplo saber a dose certa para adubação; prática: o modelo é testado, calibrado, no campo para ser adaptado a cada situação.
Resultados práticosOs resultados deste trabalho antecipam aos pesquisadores conhecimentos que a pesquisa convencional levaria de 5 a 7 anos. Além de ganhar tempo, o novo sistema reduz os custos dos projetos de pesquisa, ao dispensar a implantação de tantos experimentos como demanda o sistema tradicional.A modelagem não dispensa a experimentação de campo, necessária para ajustar o modelo às condições locais, o que levaria de 2 a 3 anos, informa o pesquisador.
Da prática agrícola decorrem implicações ambientais que dependem do uso racional e integrado dos recuros de solo e clima. Os modelos de simulação dos sistema solo-planta-atmosfera constituem a metodologia de pesquisa mais adequada para estudos desenvolvidos sob influência da alta variabilidade ambiental. Com um mínimo de informações, podemos generalizar as conclusões, completa Rogério.
A integração da recomendação da pesquisa com enfoque sistêmico é um outro avanço possibilitado pela aplicação dos modelos matemáticos.Os modelos têm condições de integrar os fatores mais importantes do sistema de produção, cruzando as informações, e permitindo visualizar diferentes situações, enquanto a experimentação tradicional é válida somnete para as condições em que o experimento foi feito, explica o pesquisador.
FuturoO Iapar comprou um pacote de modelos para 15 culturas, entre elas feijão, milho, trigo, soja, tomate, mandioca, batatae pastagem. Mas a continuidade do trabalho depende da disponibilidade de pesquisadores. Rogério Farias está saindo para fazer pós-doutoramento nesta área, e diz que que esta linha de pesquisa depende de pesquisadores de outras áreas, pois é multidisciplinar.
Pesquisadores do Uruguai, Argentina, Estados Unidos, Canadá e Brasil estão trabalhando em conjunto num projeto amplo que tem por objetivo conhecer melhor as condições de solo e clima do continente americano. As informações servirão para orientar a agricultura de precisão, ou seja, ter dados detalhados, até dentro da mesma propriedade, para evitar riscos para a atividade agrícola.


