Silagem de cana alimenta o gado
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sexta-feira, 01 de agosto de 1997
Cláudia Barberato 
EuforiaDamico contabiliza bons resultados. Gado gosta e come bem o novo alimento.Os animais do rebanho leiteiro do produtor Tomas Damico, de Bela Vista do Paraíso, estão com os pêlos mais lisos e brilhantes. É sinal de saúde, avalia. Sinal também, afirma Damico, de que a mudança feita na alimentação dos animais está dando certo. E a avaliação não se dá apenas pela aparência do rebanho, mas pelo aumento da produção diária de leite. Seguramente, garante o produtor, a silagem de cana, fornecida aos animais, é responsável por um aumento na produção de até 20%.
Contrariando algumas indicações técnicas, que não aconselham a ensilagem da cana, Damico apostou na prática e já fez seis silos, todos de superfície. A cana é tida como não ensilável, porque apresenta alto teor alcóolico. Mas isso só acontece quando não é bem feita.
Com a abertura do primeiro silo, para um período de adaptação do gado à nova alimentação, os animais passaram a selecionar a silagem de cana e a não querer mais a cana verde. Outra vantagem de cortar e ensilar todo o canavial, além do aproveitamento da cana nos meses de maio, junho, julho e agosto, segundo o produtor, é que se afasta o risco de geada nas lavouras durante o inverno e de fogo no período seco.
A ensilagem da cana permite usar toda a lavoura e evita perdas por geada ou fogoSegundo o agrônomo Pedro Katsuki, que presta assistência técnica na propriedade de Damico, a ensilagem da cana é ideal para aquele o produtor que tem rebanhos maiores e que usa um grande volume de cana todos os dias, facilitando a mão-de-obra na fazenda e ainda garantindo fornecimento equilibrado de comida aos animais.
SuplementaçãoA vantagem da silagem de cana, enumera Katsuki, é que ela é feita a partir da maturação da cana: desde o mês de março já se pode cortar o material, quando a planta concentra maior volume de energia a ser fornecida aos animais. O ponto de corte é quando as plantas têm acima de 20% de matéria seca, sendo o ideal aos 30%. O fornecimento da silagem de cana acontece na época em que há falta de pastos com qualidade.
Uso de aditivo e uréia, antes do fechamento dos silos, torna a silagem mais completaOitenta por cento da produção dos pastos, por exemplo, ocorre nas águas, o que força o produtor a ter alimento complementar para o rebanho, para enfrentar o período da seca. O produtor deve ainda pensar em evitar o superpastejo no final do outono, durante o inverno e no início da primavera, a fim de degradar menos suas áreas de pastagem.
O técnico alerta que a silagem de cana deve ser bem feita, para evitar transtornos e garantir boa fermentação do material. Não é simplesmente misturando a silagem de cana com napier que o produtor terá material com boa fermentação, como produtores têm feito sem muito sucesso, afirma.
De acordo com Katsuki, esta mistura poderá deixa a silagem com baixa palatabilidade, devido a fermentações indesejáveis, e ao alto teor de fibra do napier. Geralmente na época de ensilar a cana, o napier já está passado. Como o objetivo da mistura seria aumentar o teor de matéria seca para levar a uma boa fermentação da silagem, o produtor não terá sucesso. A cana precisa de um arranque de bactérias para que produza boa fermentação lática e isso se consegue com uso de aditivos.
O uso destes produtos, avisa Katsuki, encarece a produção em mais R$ 2,00 a tonelada da silagem. Mas o produtor recupera este investimento, já que gasta menos com mão-de-obra para lidar com a cana, por exemplo. No caso da silagem são dois ou três dias de trabalho. Se fosse fornecer a cana picada no cocho, o trabalho de entrar no canavial seria diário.
Outra vantagem é que nos dias de chuvas, o que antes impedia o corte diário da cana, não precisa se preocupar com a alimentação do gado. No momento da ensilagem é possível enriquecer a cana com uréia, o que torna a silagem um alimento mais completo, ao invés de fazer a aplicação no cocho como ainda é feito por muitos produtores.
Sustentabilidade Hoje os sistemas de produção intensiva têm que ser práticos, fáceis de operacionalizar e econômicos. Não se pode ter comida hoje para fornecer ao rebanho e amanhã não ter mais, analisa Katsuki. A silagem de cana para sistemas de produção intensivos é ainda, segundo ele, um alimento barato. Além de aproveitar a cana que já tem na propriedade o produtor consegue manter ou a té aumentar o desempenho de seus animais.
De acordo com o agrônomo, o uso da silagem de cana é indicado para rebanhos com média de até 12 litros de leite diários. Acima dessa produção o criador deverá usar outro tipo de volumoso como silagem de milho ou sorgo. É indicado também para alimentar novilhas de recria e o gado de corte em sistemas de confinamento.
Bons resultadosEntusiasmado, o produtor garante que a silagem de cana permite também o aproveitamento racional das pastagens. Até nas águas serve de alimento suplementar, contribuindo para melhor aproveitamento das pastagens, evitando pisoteio dos animais.
Na propriedade em Bela Vista do Paraíso, Damico consegue ainda alta produtividade da cana por área, com aproximadamente 160 toneladas por hectare, respondendo a uma adubação orgância feita com esterco de curral.Um verdadeiro silo em pé
Mário CesarSilagem de cana pode ser fornecida também para animais de recria e confinadosO pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite/Estação Experimental da Embrapa em Coronel Pacheco, MG, Humberto Resende, garante que silagem de cana não faz milagres. É a boa qualidade do material fornecido que consegue manter o peso e até alterar o estado dos animais, principalmente se a cana foi cortada madura, quando tem maior quantidade de energia.
A orientação da pesquisa é que o produtor tenha gramíneas conservadas na forma de feno ou silagem, para fornecer aos animais no período de escassez de forrageiras. A maior vantagem da cana é que o canavial está no ponto ideal, maduro, para ser usado no consumo animal, exatamente nesta fase de escassez de forrageiras. Mas não há necessidade de ensilar. É neste período que a cana está madura, no campo, podendo ser cortada e fornecida diretamente no cocho.
O pesquisador só recomenda ensilar quando há sobras.O melhor é fazer um canavial com corte programado, para não haver sobra de um ano para o outro. Ele não recomenda também o uso de aditivos na silagem de cana, que pode encarecer o produto. Mesmo assim, para o produtor que vai fazer a silagem, aconselha o uso de silos de fácil drenagem, caso dos modelos de superfície ou trinheira.
Resende relata que este ano houve sobra de cana na fazenda da Estação Experimental da Embrapa de Coronel Pacheco. A alternativa foi fazer a silagem de cana, sem aditivos. O gado gosta e come bem. Sobre o alto teor alcoólico da cana (fermentação não desejável) e sua influência na nutrição dos animais a Embrapa ainda não tem pesquisa. Segundo o pesquisador Joaquim Rezende Pereira, da Área de Difusão da Embrapa-Leite, de Juiz de Fora (MG), pode-se fazer uma silagem com 75% de capim e 25% de cana picada. A fermentação não é muito boa por causa do excesso de açúcar da cana. A melhor silagem é a de milho, depois vem a de sorgo e o capim elefante. O produtor pode ensilar até a aveia e alfafa. Mas a cana é mesmo, segundo os próprios produtores, um silo em pé e não há porque ensilar. Melhor é fornecê-la verde, cortada, com até 1% de uréia.(C.B.)


