Cristina Côrtes
De Londrina
A busca do diálogo e união dos diversos segmentos do setor sucroalcooleiro foi a tônica do 7º Congresso Nacional da Sociedade dos Técnicos Açucareiros e Alcooleiros (Stab), realizado de 25 a 28 deste mês em Londrina. Para o presidente da Stab, José Paulo Stupiello, ex-professor e consultor de usinas, ‘‘é urgente a definição de regras para o setor’’.
Saindo de uma crise de superoferta e preços baixos nos últimos anos, o setor corre o risco de enfrentar no próximo ano problemas com o abastecimento, se não se organizar, alerta o agrônomo e diretor da Usina Delta, em Minas Gerais, Ericson Marino. Ele aponta algumas causas para sua preocupação: pode haver uma redução na próxima safra; está havendo um aumento no consumo interno, com estímulo para o retomada do Proálcool, em função do aumento da gasolina. Finalmente, os preços externamente são melhores, e é claro, há uma forte tendência do produtor em buscar a exportação, em detrimento do mercado interno.
Segundo Marino, ‘‘não podemos deixar faltar álcool ou açúcar no País, como já aconteceu no passado, senão corremos o risco de sepultar de vez o programa Proálcool, com o setor perdendo sua credibilidade’’.
Combustível alternativo Com o aumento do preço do petróleo, o alcool voltou a surgir como uma alternativa barata, custando quase a metade do preço da gasolina. O governo autorizou o aumento de 25% para 27% na quantidade do alcool misturado a gasolina. E além disso, hoje já tem muita gente misturando alcool na bomba do posto diretamente no tanque do carro.
Segundo o engneheiroo químico Florenal Zarpelon, da usina Ester (SP), nos estudos que já vem realizando há três anos, a mistura do alcool a gasolina não tem causado problemas nos carros. ‘‘A mistura em até 1/3 não prejudica o motor’’, garante.
Na análise de Ericson Marino, este aumento de consumo descontrolado que está havendo é preocupante. ‘‘Podemos sair da superoferta e cair na escassez, porque os canaviais de São Paulo para cima enfrentam seca e já está prevista uma quebra de safra de 15% a 20% no próximo ano’’, comenta.
Atualmente o Brasil exporta 10 milhões de toneladas de açúcar, e talvez seja preciso no próximo ano reduzir este volume entre 3 e 4 milhões de toneladas, para atender o mercado interno, explicou Marino.
Colheita mecanizadaOutro tema discutido no congresso foi a colheita mecanizada. A previsão de Marino é que até 2005 toda a colheita de cana no País seja mecanizada. ‘‘Com um número cada vez menor de mão-de-obra no campo, a mecanização é inevitável, mas ainda precisamos de variedades adaptadas para evitar queda de produtividade como acontece atualmente’’, comenta.
São Paulo é até agora o Estado que mais tem feito colheita mecanizada, mas a preocupação ainda é com a destruição das socas e a compactação do solo provocada pela trânsito da máquina, do caminhão, e da carreta.
Na Austrália, país pioneiro na colheita mecanizada no campo, os produtores perdem em média um ano na vida média da soca, o que significa uma perda de 8 toneladas/ha em produtividade. A preocupação com a destruição das socas está no fato de que a operação plantio é a mais cara no cultivo da cana, e com o mesmo plantio é possível fazer até 9 cortes.
No Brasil, a colheita mecanizada foi introduzida com tecnologia mais sofisticada, máquinas mais leves. ‘‘Haverá perdas também na produtividade, mas serão menores e os produtores terão que absorver estes custos’’, explica.
Além da falta de mão-de-obra para fazer esse serviço, outro fator apontado por Marino é a pressão da comunidade próxima aos canaviais. Muitas pessoas reclamam da contaminação do ar e problemas de saúde provocados pela queimada da cana, que é feita antes da colheita. ‘‘A queimada dos canaviais é um procedimento utilizado para facilitar o corte da cana’’, explica Marino.Garantir o abastecimento futuro de açúcar e álcool no mercado interno é o desafio de usinas e produtores
ArquivoA colheita manual da cana está com seus dias contadosJosué de CarvalhoO presidente da Stab, José Paulo Stupiello, diz que o setor precisa de regulamentação urgente

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