Ser professor na zona rural na década de 70
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
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Este relato registra memórias de trabalho de um professor na zona rural do município de Cambé – Paraná na década de 70, meu marido José Moacyr Polonio Filho. Faço isso porque o citado já não mais se encontra entre nós.
Quando o conheci ele era apelidado “mestre” e “professor” pois estudava o magistério desejando ser professor. E foi.
Formou-se em 69 e já no ano seguinte habilitou-se em concurso da prefeitura municipal para o exercício da profissão. Nomeado em 1970, logo foi trabalhar na Escola da Fazenda Figueira Branca.
Era um tempo em que havia dificuldades para contratar professores para a zona rural. De maneira que havia muitos professores não habilitados lecionando na zona rural porque moravam próximo das escolas.
A rotina para o ¨Mestre¨ poder chegar até o local de seu trabalho já era uma aventura porque, na época, ele se dirigia à escola utilizando ônibus da única empresa cambeense, a Viação Reis, a qual, ainda pequena, contava com ônibus já muito usados e que, portanto, necessitavam sempre de muita manutenção.
E lá ia o “Professor” professorar de ônibus.
As idas e vindas com tais ônibus eram repletas de aventuras porque, muitas das vezes em que chovia o velho veículo, ou ficava atolado na lama da grudenta terra vermelha ou, mesmo quando as estradas estavam secas, “quebrava” alguma peça do veículo causando muita dor de cabeça aos passageiros.
No caso dos atoleiros, o ônibus só saia com auxílio do povo da zona rural que fazia o desatolamento com seus tratores, cordas e correntes. No caso da “quebra” de alguma peça, aqueles mesmos sitiantes e fazendeiros realizam o reboque do ônibus com seus grandes e fortes tratores e mais, gentis e solícitos, transportavam até os passageiros até seus destinos.
Quando chovia muitos dias, o “Mestre” tinha que permanecer dias hospedado em casa de sitiantes ou fazendeiros – pais de alunos – até que o tempo firmasse e secasse bem a terra das estradas para que o ônibus pudesse, novamente, voltar a trafegar. Assim, ele ficava isolado até mais de uma semana do convívio dos seus familiares.
E esse estado de coisas durou até que o prefeito da época, Archimedes Climério Mozer, comprou uma Rural Willys para transportar os professores da zona rural. Esse jeep era o único veículo que conseguia enfrentar aquelas estradas.
As escolas rurais funcionavam em casas cedidas pelos sitiantes ou fazendeiros, casas essas que eram adaptadas para o ensino das quatro séries.
O mobiliário era minguado: quadro que o professor utilizava com arte (ele dividia esse espaço em dois e passava matéria para duas das séries enquanto atendia as outras duas individualmente), mesa, cadeira, armário pequeno, carteiras dos alunos e utensílios de cozinha.
Mas as escolas rurais eram impecáveis em matéria de limpeza e organização, tendo o quintal bem capinado e limpo, mesmo sem ter zelador. Oferecia-se merenda aos alunos, mas sem haver merendeira. Ocorre que professor era um faz tudo: limpava e organizava tudo na escola, capinava o quintal, buscava água no poço e enchia a talha, preparava a merenda com as doações de produtos que fazendeiros e sitiantes doavam (frutas, legumes, hortaliças, frangos etc.) e ainda realizava um ou outro conserto. Ufa!
Mas, ser professor na zona rural também tinha ganhos além do prazer em exercer o trabalho a ser realizado na profissão escolhida pela pessoa, o respeito e a valorização dos alunos e de seus familiares. De maneira que, dos sitiantes e fazendeiros, os professores recebiam muitos presentes que eram produtos de suas colheitas e alguns animais que criavam.
O salário de um professor na década de 70 era muito pequeno. Assim, o professor José Moacyr, que já estava noivo, pediu exoneração da função para poder se casar trocando seu sonho profissional inicial por um que pudesse sustentar, financeira e eficientemente, seu sonho de amor.
Marina Irene Beatriz Polonio é leitora da Folha


