Sem sofrer com seca nem com geada
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sexta-feira, 11 de agosto de 2000
Cristina Côrtes De Londrina 
Há aproximadamente quatro anos o agricultor Celso Murofuse, de Mamborê, decidiu, depois de uma palestra, iniciar-se na pecuária de corte, para melhorar a renda na sua propriedade. Buscou informações e, sem abandonar o plantio de soja e milho, o produtor começou seu rebanho com 20 cabeças e hoje está com 800 animais.
A integração lavoura-pecuária tem proporcionado ao produtor uma renda mensal, com a comercialização da carne, além da renda da safra de verão. E o melhor: as lavouras não sofreram com a seca do último ano e os pastos e culturas de inverno não foram prejudicados pelas geadas. Conseguimos fugir dos riscos climáticos, porque a cobertura permanente do solo conserva a umidade durante os períodos secos, e a pastagem de inverno é resistente às baixas temperaturas, comenta Murofuse.
Ganho de pesoOs animais engordam em pastejo rotacionado intensivo. O ganho de peso é semelhante ao dos animais de confinamento, comenta o pesquisador Sérgio José Alves, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), um dos idealizadores do projeto juntamente com o professor Anibal de Moraes, da Universidade Federal do Paraná (UFPr). O projeto tem ainda o apoio da Coamo, que está validando a tecnologia na fazenda experimental da cooperativa, para incentivar outros produtores a adotarem o sistema.
O produtor Celso Murofuse foi o primeiro a colocar em prática a nova tecnologia e comenta que o sistema é bom, porém complexo e necessita de capital para investimentos. Se mal conduzido, o produtor pode ter prejuízos, alerta Murofuse.
Os resultados apresentados pelo produtor no ano 98/99 são os seguintes: em 206 dias: numa lotação de 10,8 animais/ha o ganho de peso diário foi de 760 gramas, que rendeu ao longo do ano 1644 quilos de peso vivo.
Murofuse informou que, durante o período em que a maioria dos criadores reclamavam de falta de pasto para seus animais por causa da seca, sobrava comida na sua propriedade.
A propriedade tem um total de área agricultável de 467 hectares, que foram divididos em 87 ha para pasto perene, e no restante são cultivados soja e milho na safra de verão. E no inverno, na área ocupada pelos grãos, são plantadas aveia e azevém.
Nova tecnologiaO novo sistema utiliza um pasto perene com espécies tropicais como tanzânia e mombaça; e no inverno, na área ocupada pela safra de verão, utiliza aveia e azevém. No verão os animais engordam num pastejo rotacionado intensivo, e no inverno são soltos nos pastos de aveia e azevém. Segundo Sérgio Alves, neste sistema o ganho de peso é de 58 arrobas por ha no verão e 26 arrobas/ha no inverno.
Ainda segundo o pesquisador, do Iapar, a base do sistema é a adubação e o maior insumo é o conhecimento técnico para ganho de peso no verão e inverno, num sistema totalmente de pastejo, destaca. Normalmente o produtor coloca o pasto na pior área da propriedade e não aduba. No sistema integração lavoura-pecuária, a orientação é para colocar o pasto numa área nobre, adubar e fazer manejos num sistema rotacionado. Neste sistema colocamos 10 animais/ha, ao contrário do sistema convencional que utiliza 1 animal/ha, diz Sérgio.
A tanzânia e a mombaça foram as espécies de verão escolhidas, por terem o plantio por sementes, e por apresentaram, em estudos anteriores, ganho médio de peso-dia de 800 gramas, numa lotação de 10 animais por ha. A opção de inverno é justificada pelo pesquisador: Escolhemos a aveia, que é mais precoce e o azevém, que é mais tardio e mais resistente à geada. Quando o gado está acabando com a aveia, o azevém está brotando, mantendo a oferta de alimento, comenta.
No pasto livre de inverno, é preciso um bom manejo. O receio dos produtores é que haja compactação do solo na área de lavoura de verão, com o pisoteio de animais, mas o pesquisador garante que, se o sistema for bem manejado, esse problema não acontece. É necessário um acompanhamento técnico contínuo para orientar o produtor. O sistema é complexo, envolvendo atividades diferentes, alerta.
Para não compactar no inverno, por exemplo, o produtor não deve deixar o gado rapar o pasto; tem que fazer o cultivo de verão no sistema de plantio direto, conservando a palhada, e adubar. Com este sistema o tempo para abate deixa de ser 30 a 36 meses, e passa em média a 18 meses, informa Sérgio.
VantagensAs vantagens do novo sistema são muitas. A pastagem é de melhor qualidade, e também melhora as condições do solo, reciclando melhor os nutrientes e reduzindo o uso de insumos, comenta Murofuse. Outros pontos positivos apontados pelo produtor é que a integração proprociona melhor fluxo de caixa na propriedade, diminui a necessidade de horas trabalhadas, escapa dos riscos climáticos e utiliza maquinário de maneira escalonada.
Segundo o produtor, que também é agrônomo, a soja deixa 40 a 50 gramas de nitrogênio por ha no solo depois da colheita, e como o plantio do pasto vem logo a seguir, todo este nitrogênio é transformado depois em proteína animal. Uma atividade alavanca a outra, destaca.
DificuldadesSegundo o pesquisador Sérgio Alves, uma das maiores limitações ao sistema é a resistência do pecuarista que não faz agricultura, e do agricultor que também não tem experiência com animais.
Mas para o agricultor Celso Murofuse, na prática o sistema apresenta várias dificuldades, principalmente na parte administrativa. É muito importante montar um bom planejamento, para manter o fluxo de caixa e saber comprar bem os animais para engorda, destaca.


