EscassaCaminhões carregados de madeira, mercadoria escassa no Norte do ParanáEsta possibilidade existe porque no Brasil, como em outros países do Terceiro Mundo, o homem corta árvores mas não replanta. A derrubada é mais rápida do que as reposições, embora estas sejam obrigatórias por leis que existem desde antes da Descoberta do Brasil. Quando Cabral e seus companheiros chegaram ao Brasil fizeram logo um desacato à Corôa: cortaram uma árvore para fazer a cruz usada na Primeira Missa, em 26 de abril de 1500. Naquela época o corte de uma árvore era considerado uma ofensa ao Rei de Portugal e, assim sendo, o transgressor pagava o desrespeito com a vida.
A reposição, ou reflorestamento, é feita apenas por algumas grandes empresas - principalmente indústrias de papel e celulose como a Inpacel e a Klabin, no Paraná - que mantêm reflorestamentos próprios e/ou se associam a fornecedores integrados. A situação causada pelo desmatamento é tão grave que a indústria moveleira, por exemplo, está comprando madeira a 300 quilômetros, muitas vezes até a 2000 mil km (caso do mogno da Amazônia), quando a distância economicamente tolerável da fonte de matéria-prima é no máximo a 200 km, para a indústria de papel e celulose, e a 50 km quando a madeira se destina a lenha.
PreocupaçãoA árvore é um importante item da economia, mas como se trata de recurso finito, deve ser cultivada como qualquer lavoura. O que fazer em face da escassez atual e da ameaça de colapso do abastecimento a médio prazo foi o objetivo do Fórum Regional sobre Reflorestamento Econômico, que reuniu autoridades, técnicos, industriais e agricultores, no começo desta semana em Porecatu, Norte do Paraná.
Esta discussão teve dois objetivos imediatos: 1) atender a demanda na região, especialmente da indústria moveleira de Arapongas, que vem há anos pagando o preço caro da imprevidência por não ter suas próprias fontes de abastecimento; 2) dar aos pequenos agricultores do arenito caiuá a possibilidade de adotar mais uma fonte de renda, a reserva florestal, nas áreas inaptas para a agricultura e a pecuária. Como observou o engenheiro agrônomo Sérgio Carneiro, da Emater, coordenador do Fórum, a região do arenito é carente de atividades econômicas na área agrícola, pois tem leite, ‘‘um pouco de avicultura’’, sericicultura, café com nematóide e ‘‘potencial de aproveitamento de áreas com reflorestamento.’’
AlternativaO engenheiro agrônomo Jorge Mazuckowsky, coordenador do Programa Florestal da Emater-Paraná, é especialista em silvicultura e em manejo florestal. Ele falou, no Fórum, sobre a cadeia produtiva da madeira, começando por resumir as funções da floresta, que entre outros benefícios é uma alternativa econômica importante em pequenas propriedades que teriam nelas mais uma fonte de renda.
Nessa cadeia produtiva, os maiores consumidores de madeira (pinus e eucalipto) são as fábricas de papel e celulose, que em 1993 utilizaram no Paraná 887.272 metros cúbicos (54% do consumo total do Estado), dos quais 52% de pinus.
As florestas naturais estão acabando. Na hora em que acabarem as florestas do Paraguai, da Amazônia e de outras regiões, será preciso plantar. No Paraná a situação já esteve até pior do que hoje, mas ainda assim está longe de ser suficiente pata atender a demanda. O aumento paulatino dos plantios, feitos para atender grandes indústrias, não acompanha o crescimento da demanda. Sem contar as capoeiras e áreas de matas em regeneração, o Paraná tem áreas de florestas (plantadas e replantadas) em 10% do seu território. Seis por cento desse total são matas nativas. Capoeiras e matas em regeneração cobrem mais ou menos 10% do Estado. A floresta total já esteve perto dos 5% há alguns anos. Melhorou um pouco devido à legislação ambiental.
Além de poucas, as matas nativas não podem ser usadas, e as capoeiras têm apenas valor ecológico, não econômico. Por isto, Mazuchowsky prevê que daqui a dez anos, se não houver reflorestamento, sobrarão apenas as indústrias de papel e celulose, únicas que fazem investimentos nos fornecedores, plantando nas propriedades do Paraná.
Ele dá os exemplos da Inpacel e da Klabin, a primeira cobrindo área de 18 municípios e a última 12 municípios. Elas executam projetos integrados, dos quais participam as prefeituras municipais e a Emater, além dos agricultores.
PlanejamentoMazuchowsky diz que na região de Londrina
o que precisa ser feito é um projeto de uso da matéria-prima em sete anos, para a geração de energia (lenha) e para tirar em doze anos (indústria moveleira). No momento, além das dificuldades da indústria moveleira, os panificadores estão substituindo a energia de biomassa (lenha) por energia elétrica, devido à inconstância no fornecimento de lenha. E não tem ninguém plantando árvores nem para atender a demanda das fábricas de móveis de Arapongas, para onde será transferido o Centro Tecnológico de São José dos Pinhais.
Mário CesarMazuchowsky: madeira poderá acabar nos próximos dez anos
Na fabricação dos móveis em Arapongas, 47% da matéria-prima são pinus; 9,8% canela, 6,47% santa bárbara, 5,37% grevílea e 3,6% eucalipto. A santa bárbara e o eucalipto são produzidos mais perto. Os pinus usados naquele município são procedentes principalmente de Santa Catarina, e o segundo fornecedor é Telêmaco Borba.
Quando se conversa sobre planos de reflorestamento, vem logo a pergunta: quê árvores plantar? Depende da finalidade que se pretende dar à floresta; idade de corte e outros detalhes que mudam conforme os fins. Uma indústria moveleira vai precisar de madeiras mais fortes (mais duras); uma fábrica de papel necessita de madeira mais nova; uma cooperativa que vai queimar lenha pode também utilizar um material mais mole.
São usuários de madeira: a indústria de papel e celulose, a construção civil, a indústria de móveis, as panificadoras, as olarias, as empresas que possuem secadores à lenha, e as propriedades rurais. Mazuckowsky considera absurdo um proprietário rural comprar madeira para fazer palanques, cercas e pequenos galpões ou casas.
Para reflorestar - recomenda o técnico - o produtor precisa ter ‘‘postura de empresário’’, para melhorar a renda e reduzir o custo. ‘‘Ou nos comportamos como empresários de uma atividade ou vamos quebrar’’, adverte. Ele recomenda, ainda: ‘‘É preciso estudar para saber se devemos ou não plantar árvores. E cada propriedade define como desenvolverá seu plantio e que tipo de indústria vai atender.’’ Isto é necessário porque os preços variam conforme o uso final da árvore.
Em princípio, o que se propõe para a região de Londrina (em especial para o arenito) é o cultivo de eucalipto, porque atende a maioria dos usuários de madeira aqui existentes, inclusive em parte o parque moveleiro de Arapongas, que é o maior do Paraná. Segundo cálculos feitos pela Emater, considerando cinco opções de plantio, a mata sempre dá retorno ao agricultor. Por exemplo: em um hectare de eucalipto manejado para lenha e toras, o produtor terá custo total de R$ 693,02, receita de R$3.964,00/ha e saldo de R$ 3.270,96/ha.

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