Sem mercado, trigo lota armazéns
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de janeiro de 1997
Gerson da Luz Souza Especial para a Folha Rural 
LotadosA concorrência argentina dificulta a comercialização do trigo brasileiro, que lota os armazéns
Arquivo FolhaO presidente da Coopavel, Dilvo Grolli: A culpa desta situação é do Governo
O setor cooperativista está a ponto de sofrer mais um grande prejuízo em decorrência do descaso do Poder Público para com a agricultura. Sem mercado para a comercialização do trigo, as cooperativas estão com o produto da última safra estocado em seus armazéns, e a produção de milho e soja da safra 96/97 não tem onde ser depositada.
Na região de Cascavel, uma das maiores produtoras de trigo do Paraná, a colheita chegou a 600 mil toneladas. Somente os associados da Cooperativa Agropecuária Cascavel (Coopavel) colheram mais de 100 mil toneladas do produto, o que representa 1,5 milhão de sacas. A cooperativa possui vinte postos de recebimentos, e todos ocupados pelo trigo colhido no ano passado.
ConcorrênciaSegundo o gerente operacional da Coopavel, Moacir Kessler, o mercado não está comprando trigo em função da concorrência do produto argentino, de qualidade superior e com preços competitivos em relação ao nacional. Outra vantagem oferecida pelo trigo da Argentina está no prazo de pagamento, que é de 360 dias. A produção daquele país é estimada em 15 milhões de toneladas, para um consumo interno de 5 milhões/t.
Por outro lado, os moinhos estão comprando trigo somente após rigorosas análises laboratoriais. Se já está difícil a comercialização do produto de qualidade superior, mais difícil ainda está o mercado para o trigo comum e intermediário, observa Moacir Kessler.
O diretor-presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, não aceita o fato de que o Brasil consuma 8,5 milhões de toneladas de trigo, tenha capacidade para produzir 10 milhões mas só produza 3 milhões/t. E ainda assim esta produção, que representa apenas 35% do consumo, não é comprada pelos moinhos brasileiros. Ele afirma que a culpa desta situação é do Governo, lembrando que além do marketing feito na época do plantio, o Ministério da Agricultura liberou antecipadamente o crédito para os financiamentos, o que levou os agricultores a plantarem toda a semente disponível.
O Governo Federal estimulou o plantio e agora deixou uma bomba nas mãos das cooperativas e produtores, lamenta o dirigente da Coopavel. Ele afirma que as cooperativas estão sendo as mais prejudicadas, porque venderam os insumos para recebimento na venda do trigo e, como agora não estão conseguindo comercializar o produto, estão bancando essa comercialização e arcando com o prejuízo.
Dilvo Grolli recorda que no Brasil grande parcela da população é extremamente carente, e afirma que se o Governo não cumprir o compromisso assumido, de garantia do preço mínimo na hora da colheita do trigo, o produto que deveria ir para a mesa destas pessoas acabará sendo transformado em ração animal, alimentando aves, suínos, gatos e cachorros; queimando o trabalho de brasileiros do campo e acabando com as perspectivas de uma próxima safra.
ColheitaNas lavouras dos associados da Coopavel já teve início a colheita do milho nas áreas em que a cultura foi plantada mais cedo. Por enquanto o espaço disponível nos armazéns é suficiente para guardar o produto. O maior volume da produção deverá ser colhido no próximo mês, quando realmente deverão ocorrer sérios problemas de estocagem. A previsão da Coopavel é colher neste ano 3 milhões de sacas de soja e 2 milhões de sacas de milho.


