Dos 850 milhões de hectares que compõem o território brasileiro, 120 milhões são destinados a reservas indígenas e outros 110 milhões correspondem a unidades de conservação. Cadastrados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estão apenas 420 milhões de hectares, dos quais 50 milhões são cultivados com agricultura. Vinte milhões só de soja.
Hoje, as grandes propriedades agrícolas ocupam uma área de 230 milhões de hectares, sendo 120 milhões improdutivos. Se juntarmos as 27 maiores propriedades agrícolas do País teremos uma área do tamanho do estado de São Paulo. Já a maior área agrícola do Brasil supera a extensão territorial de Sergipe, envolvendo 6 mil hectares.
O breve diagnóstico mostra que o Brasil continua sendo um país que apoia sua produção agrícola na monocultura e no latifúndio, aponta o professor da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umbelino de Oliveira, que participou da elaboração do II Plano de Reforma Agrária do governo federal. Ele esteve em Londrina, esta semana, onde ministrou uma palestra sobre o campo brasileiro no governo Lula para alunos e comunidades ligadas à Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Os cálculos de Oliveira remetem à existência de 200 milhões de hectares inexplorados, que bem poderiam ser usados para a reforma agrária. ''O governo tem condições de cumprir sua meta e assentar 450 mil famílias sem precisar importunar os agricultores'', diz.
Mas o professor acredita que mesmo com terras disponíveis o governo terá dificuldades em cumprir as metas de reforma até o final do mandato, em 2006. ''Em 2003, a meta inicial de assentar 60 mil famílias foi reduzida para 30 mil famílias e no final do ano, o governo conseguiu assentar 36 mil famílias, sendo 9 mil em áreas desapropriadas e o restante a partir da regulamentação de assentamentos antigos. Já em 2004, a meta inicial era assentar 115 mil famílias. Apenas 81 mil foram assentadas, sendo 40 mil em áreas desapropriadas'', calcula.
Segundo Oliveira, o que de fato compromete a reforma agrária brasileira é a disputa política entre os representantes do agronegócio e dos movimentos sociais. Para ele, quem sempre vence é a elite produtora, bem representada no Congresso Nacional. ''A pressão da bancada ruralista é muito maior e o governo acaba destinando mais verbas para o agronegócio em detrimento da reforma agrária'', aponta.
Para o professor, depois de obter sucesso nos dois últimos anos com a quebra na produção agropecuária norte-americana, os produtores brasileiros voltaram a lidar com os patamares históricos dos preços das commodities. ''Eles não precisam reclamar. Podem sobreviver do lucro'', declara.
Hoje, as exportações da indústria de materiais de transporte são o item mais importante da balança comercial brasileira. O agribusiness ocupa apenas 20% deste mercado. ''Em 1984, o Brasil era quarto país agrícola do mundo. Hoje é o sétimo'', reintera Oliveira.
Ele não acredita no agronegócio como a melhor solução para o desenvolvimento econômico do País. Ele explica que a economia brasileira sempre dependeu da monocultura e mesmo assim a produção nacional nunca conseguiu se sobressair no mercado internacional. ''Desde 1500 o agronegócio é tido como importante, mas o que ele realmente fez pelo País?'', questiona.

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