Sem insetos grãos têm maior valor
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2001
Cláudia Barberato De Londrina 
A maioria das pragas e insetos que atacam grãos armazenados, como trigo, milho, soja, arroz, feijão, entre outros, não vem da lavoura, mas são criadas dentro do próprio local onde estão guardados esses produtos.
A falta de limpeza nas unidades armazenadoras pode resultar em produtos de baixa qualidade, sem colocação no mercado, ou até inviabilizar a manutenção das estruturas para guardar os grãos. Pode também ferir a imagem do armazenador ou de uma cooperativa, retirando-os de uma disputa de melhores preços e maior valor agredado à produção.
Altas perdas As perdas médias de grãos no Brasil, estimadas pelo ministério da Agricultura, Conab e FAO, são de aproximadamente 10% do total que é produzido anualmente. Dependendo do ano safra isso representa cerca de 8,5 milhões a 9 milhões de toneladas. As perdas em qualidade podem ser ainda maiores, uma vez que comprometem o uso do grão ou o classificam para uso de menor valor agregado.
No caso do trigo, o produto é desclassificado para panificação se for encontrado um inseto vivo no lote de grãos. Moinhos não aceitam lotes de trigo com insetos, pois isso faltamente comprometeria a qualidade da farinha e de outros subprodutos, avisa o pesquisador da Embrapa Trigo, de Passo Fundo (RS), Irineu Lorini.
Sem insetos O pesquisador está finalizando resultados de uma parceria com a Cooperativa Integrada de Londrina, implantada desde o ano passado na unidade armazenadora de Assaí.
O trabaho chamado de Manejo Integrado de Pragas de Grãos Armazenados ou MIP Grãos, segundo Lorini, foi um desafio para pesquisadores, técnicos e funcionários da cooperativa. Projeto semelhante também foi desenvolvido na unidade de Cornélio Procópio.
Para avaliar os resultados da unidade de Assaí, a Integrada promoveu na última segunda-feira um dia de campo de Armazenagem de Trigo. Na parte da manhã, funcionários de outras unidades da cooperativa foram conhecer o trabalho na unidade de Assaí, no Norte do Estado. No período da tarde o evento foi destinado a outros técnicos e representantes de indústrias.
O trabalho da Cooperativa Integrada e Embrapa Trigo de Passo Fundo, de acordo com o pesquisador da Embrapa e o gerente da cooperativa, Sérgio Koyashiki, resultou em perdas zero por insetos durante o período de estocagem do trigo e do milho.
O programa teve início na Integrada em 99, no silo de Cornélio Procópio, onde o trigo recebido por aquela unidade permaneceu armazenado durante 10 meses em perfeitas condições, sem registrar perdas por insetos. A cooperativa pretende estender o programa para todos os seus silos (21 unidades) que armazenam grãos.
Mercado garantido Além de economia no custo operacional, com a implantação do MIP Grãos, a cooperativa buscava melhorar a imagem do seu produto junto as indústrias. O mercado hoje está reduzido a seis empresas no País. Existe até facilidade em vender o produto quando se produz com qualidade porque pouca gente está produzindo trigo e a indústria está cada vez mais exigente. Fica mais fácil vender quando se tem qualidade, conta o supervisor comercial da Integrada, Adir Dias.
Com o manejo de pragas, segundo Dias, a cooperativa está cumprindo uma exigência dos moinhos, entregando um produto livre de insetos e os moinhos, por sua vez, cumprindo a lei que exige fornecimento de alimentos sem contaminação.
As perdas antes do MIP, avalia Adir Dias, chegavam a 10% em média de redução no valor comercial do produto. Contando despesas de todo o processamento de armazenagem e o atraso no embarque, por causa da presença de insetos e o custo para limpar esse material novamente, chegava-se a um custo de R$ 2 a tonelada.
O segundo aspecto é a perda quantitativa (presumida) por ataque em torno de 2% no valor comercial do produto que, vendido a R$250 a tonelada, resultaria em R$ 5 de perda por tonelada. A desvalorização do trigo pela qualidade, quando há poucos danos, pode chegar a 5% do valor comercial do produto ou a R$12,50 por tonelada.
Limpeza total A qualidade dos grãos colhidos na lavoura deve ser mantida com o mínimo de perdas até o consumo final, afirma o pesquisador da Embrapa. Segundo ele, perdas de grãos ocasionadas por pragas em armazéns, presença de fragmentos de insetos nos subprodutos alimentares, deterioração da massa de grãos, contaminação fúngica, presença de micotoxinas, efeitos na saúde humana e animal, dificuldades para exportação de produtos e subprodutos brasileiros devido ao potencial de risco, entre outros, são alguns dos problemas que a má armazenagem de grãos produz hoje no Brasil.
O manejo de grãos armazenados, de acordo com Lorini, parte do princípio de que tudo deve estar sempre limpo. Um bom investimento é comprar vassouras, brinca o pesquisador. Falando sério, o comprometimento de todo o pessoal que trabalha na armazenagem é essencial, completa Lorini.
Resultados do MIP Sérgio Koyashiki, gerente da cooperativa, garante que o uso da tecnologia reduziu perdas de grãos avariados, perda de peso e qualidade dos grãos armazenados.
Outro benefício foi a redução da transilagem dos grãos. Antes do MIP muitos vezes o caminhão tinha que retornar a cooperativa para um novo processamento, aumentando os custos com a operação. Tivemos casos em que houve a devolução do produto e um prejuízo como esse é incalculável.
Armazenamento sadio De acordo com pesquisador da Embrapa, a implantação MIP tem várias fases mas, a mais importante delas, é a limpeza e a higienização da unidade armazenadora e da máquina de limpeza de grãos.
A maior parte das pragas são criadas dentro do próprio armazém. A eliminação total de focos de infestação dentro da unidade, como resíduos de grãos, poeiras, sobras de classificação, sobras de grãos, entre outras impurezas, é que permitirá um armazenamento sadio, afirma Lorini.
Após a limpeza, o tratamento periódico de toda a estrutura armazenadora com insetidas protetores de longa duração, é uma necessidade para evitar reinfestação de insetos nesses armazéns. Outra fase importante do MIP, lembra Lorini, é identificar as pragas para que medidas de controle possam ser realizadas.
É preciso também conhecer a resistência dessas pragas aos inseticidas químicos ou naturais, e o verdadeiro dano que cada espécie pode causar. Depois de limpos e secos os grãos podem ser tratados preventivamente com insetidas, avisa o pesquisador.
O tratamento curativo deverá, segundo Lorini, ser feito sempre que houver presença de pragas na massa de grãos. É o monitoramento, se possível duas vezes por semana, que irá identificar a presença de insetos no local. O acompanhamento da evolução das pragas que ocorrem na massa de grãos armazenados é importante para detectar o início da infestação. O monitaramento pode ser feito por amostragem e terá que analisar temperatura e umidade do grão, que influem na conservação e no resultado final.
Pragas mais comuns A Rhyzopertha dominica, mais conhecida como besourinho dos cereais, é uma das principais pragas dos grãos, especialmente trigo e arroz. Ela não é importante no milho, avisa Lorini. Mas é voraz com o trigo e deve ser a preocupação número um no manejo já que há dificuldade de controle com inseticida pela resistência genética do inseto. É o responsável pela maior parte da perda nos grãos armazenados.
O Sitophilus zeamais, ou caruncho, é problema no trigo, arroz e cevada. Vem da lavoura de milho, principalmente, e causa grandes estragos junto com o besourinho dos cerais. Mas é mais fácil de ser controlado tanto por expurgo como pela aplicação de inseticida. Juntos, o besourinho e o caruncho são responsáveis por mais de 50% dos prejuízos dentro do armazém, garante Lorini.
Os insetos também, segundo o pesquisador, levam e multiplicam fungos, que produzem micotoxinas, graves à saúde do homem e dos animais. As indústrias recusam produtos com determinados níveis de toxinas.


