Sem feiras de rua, tecnologia ajudou agricultura familiar a manter as vendas
Sites, redes sociais e aplicativos foram usados para manter a aproximação entre produtores e clientes
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sábado, 18 de abril de 2020
Sites, redes sociais e aplicativos foram usados para manter a aproximação entre produtores e clientes
Reportagem local 

A internet ajudou os produtores rurais paranaenses a garantir o escoamento da produção durante a pandemia do novo coronavírus. Sites, redes sociais e aplicativos estão sendo usados para manter a renda da agricultura familiar no período em que as feiras de rua estão suspensas. Para garantir a segurança da população, máscaras, luvas e álcool gel estão ainda mais presentes no dia-a-dia dos trabalhadores.
"A Secretaria da Agricultura e do Abastecimento fez um apelo para que a população continue consumindo os produtos da agricultura familiar paranaense. Assim, podemos amenizar as consequências da crise e evitar o desperdício de alimentos”, diz o secretário da Agricultura e do Abastecimento Norberto Ortigara por meio da Agência Estadual de Notícias. Ele acrescenta que, no entanto, é necessário considerar a importância de manter abertas as feiras ao ar livre, garantindo os cuidados com saúde da população.
Em Ponta Grossa, nos Campos Gerais, desde o dia 26 de março o site Feira Fácil Genial oferece à população o serviço de pedidos e entrega de hortifrútis e outros alimentos de produtores rurais. Na primeira semana, cerca de 900 pedidos haviam sido realizados por meio da plataforma.
A prefeitura disponibilizou um espaço que os feirantes utilizam como central de abastecimento temporário. Lá, eles organizam a logística das entregas, com fluxo limitado de pessoas e equipamentos de higienização.
STARTUP
O site era uma vontade antiga dos próprios feirantes e da gestão municipal, mas a pandemia acelerou o processo e uma startup ajudou a desenvolver a ideia, explica o coordenador do setor de agronegócio do sistema, Jonas Gonçalves Franco.
“Eu sempre quis digitalizar a feira e criar um novo conceito de negócio, colocar a tecnologia no nosso trabalho. Vimos que a demanda era grande e agregamos outros agricultores familiares. A cidade não pode ficar sem alimento”, diz ele.
Até a primeira semana, 31 agricultores tinham se cadastrado no sistema, de acordo com a prefeitura. Outras 14 pessoas estão trabalhando na logística, entre administrativo, TI, marketing, comercial e montagem de cestas. Nas entregas, todos os cuidados de higienização e distanciamento físico são tomados.
“Falamos para os motoboys que é preciso entregar o produto como se fosse para a nossa própria casa”, diz.
DEMANDA
Em Londrina, o site Compre do Pequeno entrou em ação no começo do mês de abril. Oriundos de produtores da região, itens como pão caseiro, mel, conservas, frutas, verduras e laticínios podem ser solicitados online e entregues na casa do consumidor.
No primeiro dia, foram cinco entregas. No terceiro dia de atividade, o site recebeu 150 pedidos. “Nesse dia, tivemos que pausar o sistema, porque não estávamos conseguindo atender a todos”, conta o criador, Leonardo Nogueira Pianchi.
Ele e o pai são de Jataizinho, trabalham com laticínios e estão ampliando a produção para atender a demanda. Nos primeiros dias, 12 produtores se cadastraram, e o número tem crescido diariamente.
A casa de Leonardo funciona como central para organizar as entregas, sempre com o uso de máscaras e álcool gel. “Há clientes que preferem os nossos produtos, pelo preço e pela qualidade, aos produtos do supermercado ”, diz.
TELEFONE
O uso de aplicativos já fazia parte da rotina dos produtores Rosângela e Reinaldo Gerstenderger, de Paranaguá, para realizar entregas diárias de alimentos orgânicos. Agora, a lista de clientes no grupo do Whats App até aumentou. “Nessa época de crise, muita gente que só estava no grupo para acompanhar, agora está comprando. A procura dobrou”, conta Rosângela.
Uma vez por semana, ela monta os pedidos em caixas e entrega em diferentes bairros da cidade. Os cuidados redobraram: as sacolas são descartáveis, o uso do álcool gel e a distância dos clientes são algumas estratégias para garantir um alimento seguro.
O produtor Cléber Soares de Oliveira, de São José dos Pinhais, já trabalhava com pedidos pela internet antes da situação de pandemia. Mas com fechamento de alguns órgãos públicos atendidos, surgiu a necessidade de buscar novos clientes. “Precisei reinventar meu trabalho, e os próprios clientes estão ajudando a divulgar”.
As sacolas retornáveis utilizadas nas entregas foram recolhidas, higienizadas e substituídas pelas sacolas descartáveis. Além disso, luvas, máscaras e álcool gel viraram instrumentos de trabalho. Oliveira também dispensou a ajuda da esposa e dos filhos, para reduzir o número de pessoas fora de casa.
“Precisamos pensar na nossa segurança e na dos clientes. Eles não podem ficar em casa sem alimento, e nós não podemos correr risco. Minha família depende de mim”, diz.
A família da produtora Norma Watanabe Sasaki, de Maringá, trabalha no campo há mais de 50 anos, principalmente em feiras. Antes da pandemia, as entregas correspondiam a menos de 5% das vendas. Mas desde o dia 20 de março, quando as feiras da cidade foram suspensas, a renda vem exclusivamente desse serviço.
Ferramentas como Instagram e Facebook têm colaborado para manter o público. “O cliente entra em contato conosco e recebe a lista de produtos disponíveis naquele dia. Depois que ele escolhe, nós embalamos e enviamos pelo motoboy”, conta. Norma faz questão de dar prioridade no atendimento para idosos e famílias com crianças. “Esse é um critério que reforçamos por causa da pandemia”, diz.
ACIMA DA EXPECTATIVA
O casal Fabrício Busto Alves Miguel e Adrieli Chuffi, de Faxinal, que trabalha em uma feira de orgânicos em Londrina há mais de dois anos, viu a demanda aumentar com o serviço delivery. Eles comercializam produtos como alface, almeirão, couve, tomate, cabotiá, mandioca, pepino, cenoura, beterraba, além de frutas, temperos, ervas e processados, como molho de tomate orgânico e geleia orgânica.
“Quando tivemos a notícia de que a feira ia ser suspensa, logo pensamos em fazer entregas, e a ideia também partiu dos próprios clientes. Conseguimos manter o preço da feira e fechamos parceria com uma empresa de entrega com bicicletas, para fazer um delivery sustentável”, conta Adrieli.
O resultado está acima das expectativas. “Temos uma lista de transmissão de quase 200 clientes, e não conseguimos atender nem metade. As pessoas estão buscando mais a alimentação orgânica, além do conforto de receber tudo em casa e evitar o supermercado”.
A colheita, lavagem e embalagem dos alimentos seguem todos os cuidados necessários. “Essa parte não mudou muito, porque são normas da agroindústria que nós já seguíamos”, diz.


