Sem controle, javalis viram desafio para produtores rurais
Danos ambientais, destruição de lavouras e transmissão de doenças estão entre os problemas
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de novembro de 2025
Danos ambientais, destruição de lavouras e transmissão de doenças estão entre os problemas
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

Sem políticas públicas de controle, os javalis se transformaram em um desafio para os produtores rurais e para a saúde pública. Os prejuízos causados pelos animais são vários e multissetoriais.
“Danos ambientais, destruição de lavouras, transmissão de doenças (inclusive zoonoses como raiva, tuberculose e febre maculosa), danos à vegetação nativa e dispersão de ervas daninhas”, enumera Ágide Eduardo Meneguette, presidente interino do Sistema Faep.
O dirigente reforça que o problema causado pelos javalis ocorre em todo o Paraná. “Regiões com abrigos para os animais são hoje consideradas as mais atingidas, como regiões de serra ou ainda com alta oferta de alimentos – as regiões com lavouras.”
Uma perspectiva positiva sobre o tema se abre. No dia 14 de novembro, durante a reunião do Grupo de Trabalho (GT) de Javali, composto por diversas entidades do setor e gerido pelo Sistema Faep, o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) confirmou a realização de uma pesquisa sobre a presença do javali em nível nacional.
“A pesquisa sinalizada pelo Mapa trará muita informação atualizada sobre a problemática. Será possível identificar onde os javalis estão concentrados e também quantificar os danos que eles causam, principalmente nas lavouras de grãos”, pontua o dirigente da Faep.
A FOLHA entrou em contato com a assessoria de comunicação do Mapa para saber mais detalhes a respeito da pesquisa em questão, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Legislação
A legislação permite a caça de javalis no Paraná, desde que realizada por controladores registrados no sistema do Ibama e com certificado de armamento. A criação de javalis, por sua vez, é proibida.
Morador de Teixeira Soares, nos Campos Gerais, o médico veterinário Rodrigo Menon de Souza caça javalis há mais de 20 anos, estimulado pela tradição familiar. Segundo ele, o trabalho é feito em propriedades rurais aos finais de semana, de maneira voluntária.
“Nosso trabalho visa tentar acabar com essa praga ou diminuir. Hoje eu e minha equipe trabalhamos por gostar, não cobramos nada de ninguém”, destaca. O grupo conta hoje com cerca de 20 caçadores. Os produtores rurais entram em contato e a equipe vai até as propriedades para fazer os abates.
Durante os 23 anos de trabalho caçando javalis, Menon estima mais de 1 mil animais abatidos.
“O javali é uma praga sem controle suficiente da sua espécie, a população só aumenta. O governo deveria contratar pessoas só para essa função, equipes dedicadas à caça mesmo”, sugere.
O veterinário conta que faz coletas de sangue de javalis para a Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná). “Essas coletas auxiliam no monitoramento de doenças de relevância para a pecuária e até mesmo para a saúde pública”, comenta.
História
Na América do Sul, o javali europeu foi introduzido pela Argentina e Uruguai, por volta do século 20, para fins de criação.
No Brasil, a criação de javalis e híbridos aumentou em meados dos anos 1990. No Paraná, esses animais foram trazidos para Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba.
Posteriormente, no início da década de 1960, foram levados para uma fazenda em Palmeira, de onde fugiram ou foram soltos, tornando-se grande parte das populações que hoje estão distribuídas no Estado.
A invasão de javalis que atravessaram a fronteira e ingressaram no Rio Grande do Sul por volta de 1989, somada à fuga e à soltura intencional por parte de vários criadores no final da década de 1990 (em resposta a uma decisão do Ibama contra a importação e criação de javalis), desencadeou inúmeros exemplares selvagens, formando uma população crescente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
“Essas solturas propositais propiciaram a caça da espécie. No Paraná foi diferente: as solturas e fugas incrementavam as populações que já estavam aqui, aumentando essa problemática nos últimos 10 anos”, conclui o dirigente da Faep.
Cartilha
O Sistema Faep elaborou uma cartilha que expõe os riscos causados por javalis em diversos âmbitos e que acabam por implicar em prejuízos econômicos, ambientais e sanitários.
O material, de caráter orientativo, contempla desde o histórico do animal selvagem no Brasil até as normas para o controle populacional de javalis por meio da caça.
A cartilha está pode ser acessada por este link: https://www.sistemafaep.org.br/wp-content/uploads/2020/08/Javali_Uma-ameaca-ao-Agronegocio-Paranaense_web-3.pdf


