Plantio da segunda safra de milho na região de Londrina
Plantio da segunda safra de milho na região de Londrina | Foto: Sergio Ranalli



Os problemas climáticos não causaram perdas significativas na safra 2017/18 até o momento, mas fizeram com que os agricultores tivessem de quebrar a cabeça ao pensar no plantio de inverno. Depois da seca no início do ciclo de verão e do excesso de chuvas que alongou a fase de desenvolvimento, a janela para semear a segunda safra de milho ficou apertada e mais arriscada. O medo de perder a colheita com uma geada e a escolha de parte dos produtores de optar pelo trigo gerou incertezas no mercado e fez com que o valor médio da saca aumentasse em torno de 20% nas principais praças de comercialização.

A Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) chegou a pedir por duas vezes ao Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) a prorrogação do período de plantio estabelecido no Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático), ambos atendidos parcialmente. O "Diário Oficial da União" do dia 1º de março trouxe a permissão para que cem cidades, com prazos máximos em 20 e 28 de fevereiro, ganhassem mais dez dias para o plantio do milho. Medida que serviu de alívio por não deixar os agricultores sem a cobertura do seguro rural.

Temeroso com o curto tempo para o plantio da segunda safra, Sergio Chinaglia optou por destinar 30% da área para o trigo
Temeroso com o curto tempo para o plantio da segunda safra, Sergio Chinaglia optou por destinar 30% da área para o trigo | Foto: Saulo Ohara



A condição para a prorrogação é que o plantio fosse de sementes do tipo 1, de ciclo mais curto, para diminuir a chance de geada na fase de desenvolvimento do milho. Contudo, mesmo os especialistas da área não chegaram a um consenso se valia a pena arriscar a cultura na safra de inverno. "O fato é que existe um período ideal para o plantio e a data oficial já acabou no Estado. O Mapa prorrogou o prazo, que serve para o seguro agrícola, mas não significa que seja o período ideal para aquela região ou aquele solo", explica o analista de milho do Deral/Seab (Departamento de Economia Rural, da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento), Edmar Gervásio.

Ele acredita que seja pouco provável que os produtores decidissem trocar o milho pelo trigo ou pela aveia depois do início de fevereiro, mas não descarta que parte pequena deles faça essa opção. "Serão quase 2,2 milhões de hectares e a maior parte é plantada na região Norte, então acredito que a mudança será pontual", diz Gervásio. "Mas são conjecturas. A grande questão é a incerteza que o plantio tardio causa, o que aumenta o risco de sofrer com um problema climático", completa.

O gerente técnico e econômico da Ocepar (Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), Flávio Turra, é um dos que não crê em grande redução na área plantada de milho. "Se comparar com os anos anteriores, o plantio está atrasado, mas deu uma evoluída boa nos últimos dias e está em 70% da área prevista", diz.

Turra afirma que as regiões mais prejudicadas pela demora no plantio foram a Oeste e a Centro-Oeste. Mesmo assim, acredita que seja mantida a previsão inicial do Deral, que era de 11% na redução de área plantada em relação à safra 2016/17, sem interferência do atraso na colheita da soja. "Não devemos ter queda na produção, a não ser que ocorra geada perto da colheita, que é a maior preocupação dos produtores. Mas não se espera geada para este ano."

Pensamento diferente tem o superintendente comercial da Integrada Cooperativa Agroindustrial, João Bosco de Souza Azevedo. "Se o produtor precisou plantar no período mais suscetível a problemas climáticos, era melhor ter entrado com trigo ou aveia, porque, mesmo garantem alguma receita e são culturas que deixam um residual na terra importante para a soja da safra seguinte", sugere.

Para Azevedo, tecnicamente o milho não deveria ser plantado em março, por questão de sanidade e de risco climático. Por isso, diz que a cooperativa ofereceu a permuta de custos para o trigo em sacas da produção futura, com garantia de preço mínimo. Se houver alta no valor combinado, o agricultor divide a receita. "A única coisa que não está incluída é o diesel do transporte e do maquinário. Acreditamos que o trigo é imprescindível para a cultura de verão."

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AGRICULTOR DE CAMBÉ FAZ TROCA EM 30% DA ÁREA
Não é apenas o medo de intempéries de inverno, mas o próprio tempo curto que o atraso na colheita da soja deixou para o plantio de milho que fez com que parte dos produtores optassem pelo trigo. O agricultor Sergio Chinaglia, da região de Cambé, afirma que costuma decidir a cultura de inverno na hora de pegar os insumos na cooperativa. Neste ano, ele preferiu usar 30% da área prevista para o milho de segunda safra para o trigo. "Minha janela encurtou, mas o maquinário continua a ser o mesmo do ano passado. Então nem daria tempo", diz.

O agricultor produz soja, milho e trigo, além de ter uma granja de frangos, em 290 hectares, divididos em propriedades arrendadas e no Sítio Boa Sorte, que é da família. Assim, há também dificuldades logísticas que inviabilizam o plantio em curto prazo.

Chinaglia contabilizou 15 dias de atraso na colheita da soja, causados pela demora no desenvolvimento do grão pelo excesso de chuvas e falta de luminosidade em janeiro. "No ano passado comecei a plantar milho no dia 10 de fevereiro e neste ano estou começando agora", afirma.

Mesmo que exista diferença de lucratividade entre as duas commodities, ele não se arrepende da opção. "A cotação do milho está aumentando hoje por especulação do mercado, mas existe bastante grão e o preço está baixo. O trigo é mesmo para não deixar a terra ociosa e para nutrição da terra, porque o valor é sempre o mesmo", completa Chinaglia. (F.G.)

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