Segunda safra de soja ameaça futuro da cultura
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sexta-feira, 26 de junho de 2015
Victor Lopes<br>Reportagem Local 
A rentabilidade que a soja trouxe aos produtores brasileiros nos últimos anos é inegável. A saca comercializada a valores competitivos faz com que o produtor foque na commodity e chegue até a deixar o plantio de outras culturas em segundo plano. Movimento que faz com que a chamada segunda safra de soja tenha aumentado substancialmente no Paraná. Dados do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab) apontam que a estimativa de produção da soja safrinha aumentou 38% para a safra 2014/15, atingindo a marca 271,9 mil toneladas. A área destinada também teve salto de 21%, fechando em 132,4 mil hectares. O boom produtivo aconteceu principalmente nas cidades de Campo Mourão (129%), Francisco Beltrão (60%), Ponta Grossa (59%) e Pato Branco (39%).
Se a rentabilidade é boa para os produtores, pesquisadores da Embrapa Soja e entidades ligadas ao agronegócio estão preocupados com os reflexos fitossanitários que esse plantio pode causar nas próximas safras. Pesquisas apontam que fungicidas estão perdendo eficiência devido ao plantio tardio da cultura no Estado (veja box).
Sem outras tecnologias disponíveis para o controle principalmente da ferrugem asiática, plantar a segunda safra de soja pode causar problemas na produção futura. Nesta semana, a Associação Paranaense de Produtores de Sementes e Mudas (Apasem) enviou um ofício à Seab com o objetivo de estabelecer novas normas para ajudar a minimizar esse risco. Vale lembrar que entre 15 de junho e 15 de setembro acontece o vazio sanitário, período da entressafra em que é proibido plantar a oleaginosa. Entretanto, muitos sojicultores continuam semeando a cultura entre os meses de novembro e fevereiro.
O presidente da Apasem, Kazuo Jorge Baba, explica que no início do mês a entidade promoveu uma reunião na Embrapa Soja para discutir o problema. Representantes da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), entre outras entidades, também estiveram presentes.
"A nossa principal preocupação é em relação à queda de eficiência do fungicida no controle da ferrugem. Vamos colocar a Seab a par desse problema para que se possa tomar uma posição. Vamos divulgar essa situação em outras reuniões técnicas de cooperativas, inclusive com a exposição da pesquisa da Embrapa Soja. Queremos uma posição da Seab o mais rápido possível para esse assunto", diz Baba.
Para ele e toda a diretoria da Apasem, a melhor forma de resolver o problema seria a calendarização do plantio da soja até 31 de dezembro o que, segundo o presidente da Apasem, atenderia todos os sojicultores do Paraná. "Manteríamos o vazio de 15 de junho a 15 de setembro e o plantio de 16 de setembro a 31 de dezembro. O produtor precisa pensar que evoluiu muito em relação a produtividade, biotecnologia, assistência técnica, controle de pragas e ervas daninhas. Ele não pode jogar tudo por água abaixo com a perda de eficiência desses poucos fungicidas disponíveis e, consequentemente, um controle menos efetivo da ferrugem asiática."
O economista do Deral Marcelo Garrido relata que os produtores, de fato, se preocupam apenas com a parte financeira do negócio. "Tecnicamente, há uma preocupação, mas o agricultor vê apenas o aumento da sua liquidez e um risco menor financeiramente comparado às culturas do milho e feijão, por exemplo. No caso do milho, o retorno da soja chega a três para um. Geralmente eles utilizam essa segunda safra para plantar sementes. Acredito que hoje o produtor tem acesso à informação, sabe do risco do problema, mas mesmo assim vemos que o aumento da produção na safrinha é recorrente", opina.
O gerente de sanidade vegetal da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Marcílio Martins Araújo, comenta que a entidade está aberta para discutir o assunto e tomar as devidas providências, caso haja uma comprovação da pesquisa acerca do tema. "Uma vez a pesquisa trabalhando, podemos ampliar o período do vazio sanitário, por exemplo. Devemos fazer um debate envolvendo toda a cadeia produtiva, a pesquisa e outros setores. Precisamos ter subsídios científicos para fazer a alteração da lei", complementou.



