Seca leva produtores à inadimplência
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sexta-feira, 29 de abril de 2005
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
Agricultores controlando a ansiedade com remédios e vendendo propriedades e automóveis para quitar dívidas rurais. Esta é a realidade do município de Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina), que já registrou mais de 60% de perdas na lavoura de milho safrinha em decorrência da seca.
Segundo o técnico agrícola Adilson Seti, mesmo com os 15 milímetros de chuva que ocorreram esta semana, as lavouras estão sendo atacadas por doenças. ''Quando chove um pouco, as plantas começam a brotar, mas logo morrem com a falta de umidade constante. Além disso, o sol quente dos dois últimos meses de estiagem comprometeu a ação dos produtos usados no combate à lagarta, que já está devorando as lavouras'', afirma. ''O normal é realizar duas aplicações de defensivos, mas tem produtor que já fez quatro aplicações e não conseguiu conter a praga'', completa.
Dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do município apontam que a produtividade do milho que ainda resistir à estiagem deve chegar ao máximo de 70 sacas/hectare, enquanto o custo de produção está cotado em média a 110 sacas/hectare.
''É muito triste dizer isso, mas o setor que sustenta a balança comercial não tem subsídio algum do governo neste País'', lamenta o produtor Ronaldo de Souza Pescador. Ele perdeu 70 hectares de milho na região de Paranagi, próximo a Sertaneja (63 km ao norte de Cornélio Procópio), e está prestes a perder mais 30 hectares em Sertanópolis.
Pescador calcula um prejuízo de cerca de R$ 100 mil para cobrir os custos de produção nos 100 hectares. ''O lucro obtido com a soja vou ter que usar para pagar a safra de verão no fim deste mês, mas os custos da safrinha ainda não sei como vou pagar'', diz. Segundo ele, o plantio do milho foi feito com recursos próprios. ''As revendas agrícolas facilitaram a compra dos insumos, prorrogando o prazo de pagamento para o final de setembro'', complementa.
Segundo os agrônomos da Emater local, mesmo com a seca afetando a produtividade do solo, os produtores devem arriscar o plantio do trigo para não deixar a terra ociosa. Entretanto, eles assinalam que se em condições normais o trigo produz cerca de 180 sacas/hectare, com a falta de água, a produtividade do grão deverá cair para 120 sacas/hectare, isso se chover nos meses de inverno.
''Essa chuvinha animou os produtores. Alguns estão replantando o milho e outros já estão iniciando o plantio do trigo'', aponta Adilson Seti. Segundo ele, os agricultores estão preferindo apostar no milho safrinha, pois a quebra deverá elevar os preços da commoditie. ''A previsão para o trigo não é tão boa quanto a do milho'', declara.
O agricultor Paulo Fernado Rigo calcula uma perda de mais de 70% nos 30 hectares de milho safrinha plantados em Sertanópolis, um prejuízo de R$ 1 mil/hectare. Ele também não sabe como irá pagar os insumos. ''Há pelo menos dois anos não tenho conseguido saldar as dívidas direito'', reclama.
Para Rigo, os bancos fugiram da responsabilidade de agentes financeiros, repassando esta função para as revendas. ''O governo deveria liberar um crédito adicional, o qual o produtor poderia pagar em parcelas de até cinco anos'', sugere.
João Wagner Meneguel, gerente do departamento comercial de uma revenda de insumos em Sertanópolis, afirma que a loja irá protestar os produtores que não conseguirem saldar suas dívidas. ''Se nem as multinacionais seguram, quem dirá as revendas. Protestar é questão de tempo''. Segundo ele, as dívidas giram em torno de R$ 13 milhões e pelo menos 50% dos cerca de 200 clientes não conseguirão saldar as contas.


