O agricultor investe em sementes de boa qualidade, aduba o solo, aposta em defensivos de ponta, deixa tudo preparado, mas tem um detalhe: ele continua olhando para o céu e dependendo da chuva para colher bem. Quando as precipitações em bons volumes não vêm, o sinal de alerta fica ligado, a iminência dos possíveis prejuízos acabam mexendo com o dia a dia do trabalho. Para ele, nada mais importa, apenas que a chuva venha, e venha logo.

É exatamente assim que os produtores paranaenses de milho segunda safra estão se sentindo neste momento, quando numa fase crucial da cultura, a chuva não dá as caras há um bom tempo. São semanas sem ela e projeções futuras nada otimistas. A quebra de safra ainda não pode ser estimada, mas é uma realidade dolorosa, inevitável.

Não é preciso ser um expert em meteorologia ou na cultura do milho para entender o tamanho da dor de cabeça para os produtores. Em abril de 2017, as precipitações em Londrina, por exemplo, fecharam em 139,6 milímetros. Neste ano, são ínfimos 9,2 milímetros. Só como base, a média histórica para o mês é de 112 milímetros. E a situação não melhora nada agora para o mês de maio. "Talvez, lá para o dia 10, venha uma chuva, mas nada significativa. A temperatura máxima está na casa dos 30ºC, o tempo está seco, com baixa umidade relativa do ar", explica a meteorologista do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná), Angela Beatriz da Costa.

O Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria de Agricultura do Estado do Paraná (Seab) ainda não consegue estimar o tamanho das perdas, mas a reportagem da FOLHA conversou com produtores, cooperativas e pesquisadores. Para eles o percentual varia de 30% a 70% do volume em diferentes áreas, dependendo da fase da cultura, região plantada, entre outros fatores. A estimativa inicial do milho safrinha era uma produção na safra 2017/18 de 12,2 milhões de toneladas, retração de 8% frente ao ano passado, para uma área de 2,1 milhões de hectares, que também caiu 11%. Número de produção que provavelmente não vale nada neste momento.

O técnico do Deral especializado em milho, Edmar Gervásio, relata que o "sinal amarelo para a cultura está ligado", pois se trata de uma fase crítica da cultura que precisa de água. "Se não tivermos uma normalização da questão hídrica, pode haver sim um impacto. Ainda não dá pra cravar, temos algumas regiões melhores, outras mais preocupantes. Teremos um número mais claro no final do mês."

Gervásio complementa dizendo que nas fases da floração e frutificação há uma intensificação da necessidade de água, porque é justamente nesse momento que se desenvolve os grãos. "A janela de plantio do milho foi de janeiro à março. Tem lavouras bem evoluídas, algumas em maturação, a maioria no desenvolvimento vegetativo e floração. A nova avaliação (das lavouras) deve sugerir um potencial de perdas."

Imagem ilustrativa da imagem Seca castiga



PLANTIO DO TRIGO ATRASADO
No caso do trigo, o cenário é um pouco diferente. Isso porque os produtores têm a opção de não fazer o plantio enquanto a chuva não vem, afinal, como eles dizem, "não dá para plantar no pó". "A expectativa é que com a melhora do tempo comece a intensificar o plantio, que de momento está atrasado. Isso preocupa porque se começa a passar um pouco do tempo adequado", relata o técnico do Deral, Carlos Hugo Godinho.

A janela de plantio varia para cada região do Estado, fechando de modo geral no final de junho. "Tem lugares que essa janela fecha muito antes, principalmente no Oeste, porque eles também plantam milho. O tempo que sobra é muito pequeno. Não acredito que a preocupação seja muito grande agora, mas se continuar seco até a metade do mês, a situação muda."

O lado, digamos, mais positivo é que diferentemente do milho – em que o prejuízo é evidente porque já está plantado – no trigo, o produtor tem a opção de cancelar os pedidos e pular a safra. "Como não está aquela maravilha plantar trigo, se não der, paciência. O valor da saca está empatando e até um pouco abaixo do custo de produção", complementa Godinho.

Segundo o Deral, a expectativa da safra de trigo 17/18 é de 3,29 milhões de toneladas, 48% acima das 2,22 milhões de toneladas do ano passado. A área para a cultura neste ano fechou em 1 milhão de hectares.

'Não terei mais milho, mas sim um pepino'

Geraldo Casaroto avalia a baixa qualidade das espigas do milho e não esconde a  preocupação: "Estava com força total, até melhor do que no ano passado"
Geraldo Casaroto avalia a baixa qualidade das espigas do milho e não esconde a preocupação: "Estava com força total, até melhor do que no ano passado" | Foto: Gina Mardones



"Daqui a pouco não vou ter mais milho, vou ter é um pepino". As palavras e o tom de voz do produtor Geraldo Casaroto demonstram bem o tamanho da sua preocupação em relação ao milho safrinha que está em sua área de 500 alqueires, em Londrina, Cambé, Ibiporã e Sertanópolis. Ele plantou o cereal entre os dias 10 de fevereiro e 12 de março, e segundo ele, "estava com força total, até melhor do que no ano passado."

A preocupação começou depois da Páscoa, quando simplesmente não choveu mais em sua área. "A última chuva já faz 30 dias. Tenho milho perto do pendão, outros já embonecados, em várias etapas... Ainda não é possível falar no percentual que já perdi, mas sem dúvida existe perda", comenta ele.

A expectativa de Casaroto era que agora entre os dias 9 a 11 de maio viesse uma chuva para atenuar os problemas, mas a meteorologia não garante bons volumes para as próximas semanas. "Já era para chover há pelo menos 10 dias e a colheita está programada para a segunda quinzena de julho. Esta é a fase que mais precisava, se passar agora dessa forma (na seca), só Deus sabe o que vai acontecer", lamenta-se.

No ano passado ele fechou com média para o milho de 260 sacas por alqueire, mas também salienta que não teve a rentabilidade que esperava. Talvez isso ainda seja a esperança de Casaroto acerca do que está por vir. "Ainda estamos pensando em produtividade, não em preço, mas nem sempre fazer a safra cheia é sinônimo de lucro. Em 2015, colhemos muito mal o milho e vendemos a R$ 50 a saca. Desta forma algumas vezes acaba dando mais resultado do que colher muito e vender a R$ 18 a saca. Essa matemática de perdas e ganhos só vamos saber no final, lá em setembro, quando fechar os números."

Bem, pelo menos em relação à soja colhida na área, Casaroto não tem do que reclamar. A produtividade por alqueire fechou na casa de 158 sacas e, com os bons preços, fechou em média de R$ 70 por casa. Excelentes números para a oleaginosa. "Agora, em relação ao milho, é olhar para o céu e rezar."

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