Dias atrás, numa conversa informal aqui na redação da FOLHA, dom Albano Cavallin, arcebispo emérito de Londrina, contou a admiração que possui pelo Madruguésio, o personagem da Folha Rural. Aí, fomos atrás dele para saber de onde vem este contato com o rural e suas experiências como pastor da Igreja com este público. ''Sou filho de fazendeiro de todas as modalidades, agrícola, pecuária e equina'', justifica.
''Se queres viver com alegria semeia, planta e cria.'' Esta frase ficava na placa instalada na porteira de entrada da Fazenda Queimados, na comunidade Caitá, em São Mateus do Sul, que pertencia à família de dom Albano. ''Era a mística da fazenda. Ali aprendi a amar, a ter contato com o homem rural e as lutas que ele enfrenta'', justifica.
Na infância, quando morava na fazenda, recorda dom Albano, ele tinha a tarefa de alimentar os porcos. O ''prato'' principal deveria ser o pinhão, aproveitando a farta produção da floresta de araucárias da propriedade. ''Minha mãe me dava broncas porque tratava os porcos com muito milho. Os animais comiam melhor'', diz ele em risos recordando a arte praticada.
E, mergulhado nas lembranças, o arcebispo destaca a mãe, Celestina Bortoletto Cavallin, que cuidava da administração da propriedade e que teve um papel marcante na promoção social dos funcionários da fazenda. O pai, Pedro Cavallin ficava na cidade onde trabalhava com construção civil. Ela tinha o apoio de outra mulheres, esposas de madeireiros, em busca de melhorias para os moradores da região, como saúde e educação. ''Dona Celestina era a 'prefeita' da região'', compara dom Albano.
Em suas experiências rurais já como pastor, dom Albano cita o contato com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) entre 1986 e 1990, quando era bispo em Guarapuava. Na região, como calcula, teriam se formado os primeiros assentamentos. Para conhecer a realidade daquele povo, saiu em visita pastoral por cerca de 40 acampamentos. A catequese foi mal interpretada pela lideranças da região. ''Fui ameaçado de morte pelos fazendeiros'', revela. Dom Albano foi chamado para explicar-se na Câmara de Vereadores e o fato ele resume em uma das frases ditas: ''Não quero vossas vacas, quero vossas almas.
Mas voltando ao Madruguésio, dom Albano assemelha o personagem à proposta das fábulas da literatura infantil escritas por Esopo e La Fontaine, que, em sua opinão, trazem diálogos lindos. ''Rindo castigam os costumes'', cita o arcebispo. Ele emenda a explicação dizendo que ''o Madruguésio tem uma ironia marcante no papel pedagógico e educador que possui, dando voz a quem não tem'', diz o arcebispo. ''Só falta fazer bicho falar'', sugere.
Dom Albano tornou-se conhecido em seu trabalho pastoral por utilizar-se de histórias nas explicações dos fatos bíblicos, que rendeu-lhe o título de ''o bispo contador de histórias'' - tanto suas histórias quanto o trabalho de sua mãe foram transformados em livros escritos pelo arcebispo. Agora, mais uma boa notícia. Dom Albano se colocou como colaborador de temas para as charges do Madruguésio e já nos enviou alguns deles. - Já estão nas mãos de nosso artista Marco Jacobsen.
Célia Guerra
A prosa de hoje, que não traz o estilo típico literário, é um agradecimento a todos ligados à area rural que de alguma forma também se identificam com o Madruguésio.
A Folha Rural entra em recesso de fim de ano e retorna no dia 10 de Janeiro.

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