Se não souber usar, pode acabar
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sexta-feira, 28 de março de 1997
Jota Oliveira 
MatandoRio Belém, em Curitiba: poluição industrial e domésticaVinte e dois de março foi o Dia da Água, quando a Sanepar distribuiu um alerta dramático à população: ...um dia a água pode faltar e, pela escassez, provocar as guerras do próximo século, conforme prevêem instituições internacionais. No mesmo documento, a empresa adverte: Por fazer parte da rotina e estar sempre disponível, os brasileiros ainda não se deram conta de que a água é um bem cada vez mais escasso na natureza e cada pessoa deve evitar o desperdício.
No Atlas do Meio Ambiente do Brasil, editado em 1994 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com participação da Fundação Banco do Brasil, os pesquisadores tratam das ameaças contra a indispensável fonte de sustentação da vida que é a água, e concluem: a água está morrendo. Hoje, o suprimento de água doce no mundo é abundante principalmente em regiões pouco povoadas como o Alasca, Pólo Norte, Groenlândia, Sibéria e algumas ilhas do Pacífico Oriental. Boa parte do Brasil também possui água em abundância.
Esgoto clandestino, uma das formas de poluição das águas
No Brasil, ocorre escassez no Nordeste e, ocasionalmente, no Oeste e no Sul do País; o suprimento é considerado adequado em uma parte da Amazônia, uma ilha na divisa das Guianas e Venezuela, cercada pela riqueza de água na Amazônia Legal. No mundo, o suprimento é insuficiente em quase toda a África, em mais da metade da Austrália, no Norte da Índia, nos Bálcãs e no Oriente Médio.
A morteO Mapa do Meio Ambiente aponta os seguintes fenômenos que estão causando a morte dos mananciais de água no mundo:
1) o desmatamento, que retira a cobertura vegetal, favorece o asssoreamento dos rios, provoca mudanças indesejáveis no clima e diminui a alimentação aquática; 2) as grandes metrópoles que despejam nos rios e seus afluentes toneladas de esgoto e objetos sólidos de difícil decomposição; 3) as cidades pequenas, ao despejar seus esgotos sem tratamento nas nascentes ou rios; 4) os defensivos agrícolas escoados pela chuva ou penetrando nos lençóis de água, poluindo os rios; 5) os garimpos, que jogam nos rios produtos químicos pesados como o mercúrio e sujam as águas destinadas ao abastecimento das comunidades; 7) os aterros sanitários a céu aberto que afetam os lençóis de água; 8) as indústrias, ao utilizarem os rios como escoadouros de seus resíduos tóxicos; 9) os portos, que são lavados a cada cinco anos e despejam no mar todos os dejetos acumulados; 11) os petroleiros e as plataformas de petróleo ao despejarem óleos nas águas, contribuindo para a poluição ambiental e matando a vida marinha.
Agonia do Tamanduá, um riozinho de Foz do Iguaçu em processo de assoreamento
Os fertilizantes e inseticidas são importantes contaminadores da água no mundo, mas este problema é maior nas regiões mais ricas: enquanto a América do Norte aplicava 1,8 bujão de inseticida por hectare no começo dos anos 90, a Europa aplicava 2 bujões, a África usava apenas 0,4 e a América do Sul 0,7 bujão/ha. De fertilizantes, conforme dados da mesma época, a América do Norte aplicava 83,4 sacos por hectare cultivado, Europa 228 sacos, África 19,3 e América do Sul 40,4 sacos de fertilizantes/ha.
No Brasil, em 1991 foram aplicadas 3.186.276 toneladas de defensivos e 1.832.658 toneladas de fertilizantes. Segundo a Embrapa, no mesmo ano apenas 300 mil toneladas de defensivos seriam necessárias para cumprir sua função; o restante serviu apenas para contaminar o solo e a água. No grupo dos fertilizantes, 750 mil toneladas foram aproveitadas, e o restante a chuva e os lençóis de água carregaram.
Sem desperdícioA oferta de água doce não é tão grande e nem infinitamente renovável a ponto de se poder desperdiçar sempre: do total de água existente no mundo, 97% são os oceanos e apenas 3% são doces. Destes 3%, estão nos lagos 52%, 38% estão retidos no solo, 8% acham-se na atmosfera, 1% nos organismos vivos e somente 1% acha-se nos rios.
Com uma projeção de população crescente, recursos naturais em queda e redução proporcional da oferta de alimentos, o mundo caminha para uma situação crítica que pode ser alcançada logo no começo do Século 21. O problema, que até há poucos anos só poderia ser imaginado pelos escritores de ficção científica, terá consequências fatais: faltará água potável em muitos países, e em outros a água estará tão poluída que será imprópria para consumo humano. Estas projeções não constam de um livro de ficção, mas do Atlas do Meio Ambiente do Brasil, que a Embrapa produziu com auxílio da Fundação Banco do Brasil, através da Editora Terra Viva.
Calcula-se, e o Atlas mostra isto, que desaparecem todos os dias, na Terra, entre 8 mil e 28 mil espécies vivas (animais e vegetais), desequilibrando o ambiente e colocando em risco as demais espécies, pois existe uma interdependência dos seres que formam a biodiversidade mundial. O homem no meio, mas aparecendo na ponta como principal predador dos demais seres. Para os autores do Atlas do Meio Ambiente nunca, na história da Humanidade, ficou tão evidente a vulnerabilidade do ecossistema planetário.


