SBPC quer debate amplo sobre soja
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sábado, 07 de novembro de 1998
Marcos Zanatta 
Um dos assuntos mais polêmicos discutidos na semana passada em Maringá, durante a 6ª Reunião Especial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), foi sobre a soja transgênica. Pesquisadores ligados à entidade querem amplo debate em torno da mutação genética de plantas, antes da liberação do plantio no País.
Desde julho passado a SBPC vem cobrando algumas dúvidas sobre a soja transgênica, da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. A CTNBio emitiu parecer técnico liberando o uso da semente modificada em escala comercial.
Entidades ambientais, que discutem o assunto, conseguiram liminar na Justiça, questionando o processo de liberação e impedindo o plantio sem um estudo de impacto ambiental. A briga promete ir longe. A professora Glaci Terezinha Zancan, vice-presidente da SBPC, explica que a empresa responsável pelo desenvolvimento da soja transgênica, a Monsanto, divulgou apenas os resultados alcançados com a variedade nos Estados Unidos. Nosso solo, clima e todas as outras condições são diferentes e não podemos nos basear em um estudo fora da realidade local, prega ela.
PesquisaOutro obstáculo para liberar o plantio da variedade, segundo Glaci, é a falta de pesquisas no campo. O Brasil não conhece a microbiótica do solo e das plantas daninhas, diz. A planta resultante da semente modificada pode também alterar alguns mecanismos comuns nas lavouras comerciais, prejudicando o solo e todo o meio ambiente. A SBPC, garante Glaci, só teve acesso a avaliações de produtividade da soja transgênica norte-americana.
Outros estudos apresentados pela empresa foram de testes realizados em animais, mas sempre em curto espaço de tempo. O que foi repassado para a SBPC é material divulgado em todo o mundo, reclama ela.
A entidade quer saber primeiro se foi feito um estudo sobre a dissolução química do glifosato nas condições brasileiras. O glifosato é um agroquímico considerado de baixa toxidade para o controle de ervas daninhas, e a planta da soja transgênica é resistente ao produto. A SBPC pergunta também se o planta não sofre alterações nos nódulos da raiz, importantes para manter o nitrogênio no solo. Existem dúvidas, por parte da SBPC, se a variedade modificada influi na população de microorganismos do solo, e se existem espécies no Brasil que podem ser polinizadas pela soja transgênica, alterando variedades comuns.
Mas a procupação maior não está no campo e sim nos efeitos que a soja transgênica pode causar nos alimentos. Hoje uma infinidade de alimentos levam soja, e não podemos liberar um material modificado sem antes termos certeza dos efeitos no organismo humano, aaargumenta Glaci. Ela lembra que a soja tem três proteínas que causam alergia, sentidas principalmente pelos japoneses. No Japão existe um movimento pela rotulação dos produtos à base de soja, principalmente com a chegada da semente modificada no mercado de consumo, revela. A Europa também pediu uma moratória de dois anos para conhecer o resultado da soja transgênica no consumo humano.
MercadoAí, continua Glaci, entra a questão econômica. Para quem vamos vender nossa produção, se começarmos a plantar soja transgênica e os países consumidores se fecharem ao produto?, questiona ela. Mesmo com a liberação da soja modificada, a SBPC defende a rotulação de todos os produtos que venham a utilizar a semente transgênica na formulação. Assim como os agrotóxicos têm uma rotulação nas embalagens, os alimentos que levarem a soja transgênica devem trazer um alerta aos condumidores, resume Glaci.
A Monsanto do Brasil, que negocia com o governo brasileiro a liberação da soja transgênica há três anos, argumenta que o produto é idêntico ao cultivado hoje no País. O representante da empresa no encontro da SBPC, Geraldo Berger, explica que a liberação vai ser acompanhada. Nos Estados Unidos, segundo ele, a cada cinco anos os órgãos governamentais do setor fazem uma avaliação do produto, e se houver problemas o projeto pode ser paralisado. Ele diz que na Europa não existe obstáculo para a soja modificada, e sim uma discussão em torno da necessidade de rotulação do produto final.
Berger explica que a rotulagem de alimentos deve ser feita quando existe risco para o consumidor específico, como os diabéticos. Qualquer produto que apresente riscos à saúde não entra no mercado, lembra. Ele diz ainda que se a pesquisa não mostrou nenhuma modificação no produto final alcançado com a planta transgênica, não existe porque diferenciar a nível de varejo. A rotulagem vai ter um custo, que será pago como sempre pelo consumidor final, diz.


