O debate sobre sanidade animal vem ganhando cada vez mais espaço na mídia nacional. Após o advento da doença da ‘‘vaca louca’’ na Europa, os veículos de comunicação estão interessados em saber como são criados os animais no Brasil. A ocorrência do ‘‘scrapie’’ no Paraná, doença típica de ovinos, que foi associada como precursora do mal da ‘‘vaca louca’’ na Europa, aguçou ainda mais o interesse da imprensa.
Se por um lado a ocorrência dessas doenças prejudicam o mercado, por outro lado o tema da sanidade animal ganhou o debate nacional. No último sábado, dia 3, em Curitiba, alguns especialistas se reuniram para debater o tema. Participaram do encontro o coordenador da Divisão Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura, Felisberto Baptista; o chefe da Vigilância Sanitária da Delegacia Federal do Ministério da Agricultura no Paraná, Carlos Conti; o assessor de pecuária da Federação da Agricultura do Paraná, Alexandre Jacewicz e o assessor econômico do Sindicato da Indústria da Carne (Sindicarnes) Gustavo Fanaya.
Complô internacional Gustavo Fanaya traçou um quadro de como os países concorrentes nas exportações de carnes tentaram colocar o Brasil na rota da doença da ‘‘vaca louca’’, utilizando-se de uma rede de informações e contra-informações na imprensa internacional. Para o economista, ficou claro que o Canadá tentou colocar esse aspecto de sanidade como subterfúgio a outros interesses comerciais.
Como retaliação individual, na opinião de Fanaya, essa iniciativa não representaria nada porque o Canadá importa apenas US$ 6 milhões por ano de carne industrializada do Brasil. ‘‘Mas a estratégia usada gera efeitos terríveis’’, advertiu.
No caso do Nafta, acordo comercial que inclui Canadá, Estados Unidos e México, os demais parceiros acompanham as mesmas decisões. Segundo Fanaya, os Estados Unidos importam US$ 100 milhões em carne industrializada do Brasil. ‘‘Essa atitude irresponsável do governo canadense pode gerar consequências piores se outros mercados seguirem essa posição. Aí o problema se torna gravíssimo, porque as nossas exportações de carne bovina somam US$ 350 milhões’’, afirmou.
Outro problema referente à sanidade animal criado para o mercado brasileiro, segundo Fanaya, foi a atitude que a Argentina tomou em relação à ocorrência do ‘‘scrapie’’ no Paraná.
A Argentina é o maior concorrente do Brasil no mercado internacional de carnes e não perdeu tempo em difundir informações ‘‘mentirosas sobre o scrapie, chegando até a sugerir nas agências internacionais de notícias, que já tivéssemos a vaca louca por aqui’’.
Esse comportamento da Argentina criou uma série de desinformações, segundo Fanaya, e ganhou espaço na imprensa internacional. ‘‘O curioso é que os carneiros doentes foram importados dos EUA e Canadá, ficando claro que os países concorrentes se utilizaram de um pretexto grosseiro para atrapalhar o mercado brasileiro. Esses países convivem com o scrapie há muitos anos e até hoje não têm um caso sequer doença da ‘vaca louca’ registrado.’’
Apesar do ‘‘complô’’ internacional, Fanaya não isentou o Ministério da Agricultura de culpa em todo esse episódio. Segundo ele, o Ministério da Agricultura é um órgão que demora muito a passar as informações solicitadas a nível interno. Ele não se espanta que o Canadá tenha falado a verdade quando disse que o governo brasileiro não repassou as informações sobre sanidade em tempo hábil, que acabou gerando todo esse problema.
União em cadeia Para o representante da Faep, Alexandre Jacewicz, a forma de preservar a sanidade do rebanho brasileiro e evitar ocorrência de doenças é o envolvimento de toda a cadeia produtiva. Ele lembrou que a Faep está envolvida com um trabalho de organização dos Conselhos Estadual e Municipais de Sanidade Agropecuária que atingem o produtor rural, em sua propriedade onde as coisas efetivamente acontecem.
Segundo ele, os pecuaristas devem permitir somente a entrada de insumos de alta qualidade e de boa procedência. A mesma coisa deve ocorrer com animais como matrizes e reprodutores, destacou. No Paraná, através da parceria entre governo estadual e iniciativa privada ‘‘já conseguimos erradicar a febre aftosa e a peste suína clássica’’. Agora estamos ampliando esse leque para a doença de new castle em avicultura’’.
Rastreabilidade O representante do Ministério da Agricultura, Carlos Conti, abordou os temas da rastreabilidade e biossegurança, que também entraram na rota do debate e das exigências do mercado internacional. ‘‘ Hoje o mote é discutir a biossegurança dos produtos onde higiene e tecnologia passaram a ser as leis máximas em produtos agropecuários’’, salientou.
Conti admitiu que o Brasil ainda falha no sistema de rastreabilidade dos produtos. Mas adiantou que o Ministério está adotando um modelo com informações interligadas entre indústrias e propriedades rurais, para atender as exigências das empresas que participam do comércio internacional.
Para o médico veterinário Felisberto Baptista, da Secretaria da Agricultura, está ficando cada vez mais claro que só vai permanecer no mercado quem tem alta competitividade e tecnologia de ponta.
Os acordos sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias e o de Barreiras Técnicas, segundo Baptista, são os mais utilizados pelos países desenvolvidos para restrições ao comércio exterior. Nesse contexto, os países que não aderirem ao quadro de sanidade imposto pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) não conseguirão negociar seus produtos.
‘‘Toda medida de segurança e proteção está embasada em sustentação técnica e científica,’’ disse Baptista. Segundo ele, a Seab está trabalhando numa linha de harmonização entre legislação, normas e critérios. ‘‘Os países desenvolvidos cobram o conceito de multifuncionalidade como fator social. Com esse gancho eles colocam as restrições que estão aí e aplicam altos subsídios em seus produtos’’, lembrou.
Mesmo no mercado interno, afirmou Baptista, o consumidor está se tornando altamente exigente, o que acentua a importância da sanidade animal como fator para alavancar os negócios. Segundo Baptista, o consumidor já procura pelo boi verde e exige garantias que o animal não tenha resíduos de antibióticos nem de hormônios promotores do crescimeto. Daí a necessidade de valorizar a Defesa Sanitária Animal que vem desempenhando importância estratégica para a economia de um país e também em Saúde Pública, no sentido que evita as zoonoses transmissíveis ao homem.

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