Cerca de 100 mil produtores de leite desapareceram na Argentina, na última década, com a mudança do sistema de produção para uma economia de escala. Nesse período ocorreu um processo de concentração da propriedade e produtores que não conseguiam boas produtividades com seus animais acabaram vendendo as propriedades. Para evitar a extinção total dos pequenos produtores, que constituíam quase a metade de seu quadro associativo, a cooperativa de leite Milkaut vem trabalhando num projeto pioneiro de associativismo.
O sucesso desse projeto depende fundamentalmente da credibilidade e da confiança entre produtores e dirigentes de cooperativas. Foi uma alternativa encontrada pela Milkaut para reter seu quadro atual de 1300 cooperados, dos quais 45% são pequenos produtores.
Paulo DominguesDetalhe de um dos bezerreiros, de uma cooperativa de pequenos produtoresO projeto, ainda em experiência, está aberto ao ingresso de pequenos produtores com até 50 animais. O objetivo é ter 10 sócios, com 30 animais cada um, na estância La Florida, uma propriedade com 250 hectares, localizada na província de Santa Fé. A terra é arrendada especialmente para funcionar como ‘‘creche’’ de novilhas e maternidade de vacas leiteiras.
Rendimento livreA propriedade é equipada com ordenha mecânica e resfriadores, equipamentos que os produtores não teriam condições de adquirir sozinhos, já que suas instalações são precárias. O produtor não tem nenhuma despesa no internamento dos animais. Através de um contrato firmado por cinco anos, o associado entrega as fêmeas, saúdaveis, com sete meses de prenhez.
Na cooperativa os animais recebem alimentação adequada. O parto é assistido por veterinários e o produtor recebe o equivalente a 10% do leite produzido pelo seu animal, livre de qualquer custo. O único trabalho, do produtor, é criar a fêmea e dar condições para que ela fique prenha.
Se nascer um terneiro, este volta à propriedade onde será criado para o abate. Além disso, as cooperativas também enviam seus próprios terneiros para serem criados pelos produtores, pelos quais pagam US$15 por animal/mês. Trata-se de um sistema de terceirização onde a cooperativa concentra suas ações na produção de leite, mas não descarta a vantagem de ter um terneiro criado para o abate.
O controle sobre as vacas leiteiras na maternidade e os terneiros na propriedade é rigoroso. Os animais são pesados e o controle é mensal, sendo que o pagamento do terneiro é feito por ganho de peso. ‘‘Se o animal come mais, o produtor recebe mais’’, explicou Gustavo Vicentini, engenheiro-agrônomo da Milkaut responsável pelo projeto.
Confiança mútuaA vantagem para os produtores é o rendimento e aumento de produtividade. Segundo Vicentini, as vacas com produtividade de 10 litros/dia na propriedade de origem, conseguem produzir, na cooperativa, em torno de 17 litros/dia, a partir de uma suplementação alimentar e pasto à base de alfafa.
O aumento do volume de produção é vantajoso para a cooperativa, que evita a saída dos produtores de seu quadro de associados. Atualmente a cooperativa mantém 180 fêmeas na propriedade, sendo 90 da própria cooperativa e 90 de três associados.
Nestas condições o produtor está ganhando entre US$340 a US$400 por mês com a venda do leite, calculou Vicentini. Este valor varia de acordo com o preço do leite e com a qualidade do produto. Enquanto os produtores ganham com cria e recria de terneiros, a cooperativa ganha com o aumento de produção, qualidade de leite, maior volume e baixo custo.‘‘Trata-se de uma solução estratégica que implica em credibilidade das partes e confiança mútua para evitar que os pequenos produtores desapareçam’’, resumiu Vicentini.

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