Sai o fumo, entra o cogumelo
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sexta-feira, 17 de julho de 2015
Victor Lopes<br>Reportagem Local
A 70 quilômetros de Curitiba, uma pequena cidade de 15 mil habitantes testemunha uma reviravolta na agricultura familiar, a qual tem melhorado a vida de dezenas de pequenos produtores. Por muito anos, Tijucas do Sul teve sua economia rural baseada na produção de batata salsa, frango e fumo, esta última uma cultura controversa, que causa danos sérios à saúde dos produtores, pois envolve o uso de agrotóxicos, como herbicidas, inseticidas, fungicidas e antibrotantes.
A alternativa encontrada pelo município para substituir a fumicultura foi a produção de morangos e, principalmente, de cogumelos Paris, conhecidos popularmente por champignons. A cultura já teve picos produtivos em outras décadas, mas devido à falta de conhecimento na área e matéria-prima ruim para a produção, os cogumelos minguaram na cidade. Entretanto, um grupo de produtores, com a ajuda do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), persistiu na atividade, apostou na formação de uma cooperativa há três anos e hoje conta com aproximadamente 60 famílias associadas e uma produção mensal de 25 toneladas de cogumelos. Muitos deles, inclusive, estão no processo de transição da produção do fumo para o champignon, adaptando a estrutura da propriedade para a nova cultura.
O extensionista do Emater no município Nilson Gomes relata que a cidade de Tijucas do Sul tem clima e umidade relativa do ar propícios para a atividade: temperaturas que variam de 17ºC a 26°C e umidade entre 80% e 90%. Muitos fumicultores adaptaram o galpão usado na secagem do fumo em geral, de 50 metros quadrados -, instalando equipamentos como ar-condicionado e termostato para focar na produção do cogumelo durante a entressafra do tabaco. "O cogumelo acaba atraindo mulheres e jovens para a atividade, já que o trabalho é mais leve. Já com o fumo os produtores ficam doentes com o acúmulo de agrotóxicos no corpo", explica Gomes.
Enquanto o fumo gera renda uma vez por ano aos pequenos produtores de Tijucas do Sul, o cogumelo Paris tem cinco safras anuais. "Investimos em assistência técnica, na criação da cooperativa, na elaboração de um composto produtivo de qualidade, que vem direto da cidade de Castro, e colocamos o nosso cogumelo entre os melhores do País. Com três câmaras de cultivo, com investimento em torno de R$ 20 mil cada, o produtor consegue uma renda superior ao fumo, pagando rapidamente o investimento", diz o extensionista.
Com um composto de 12 quilos, que custa R$ 8,50, é possível produzir dois quilos de champignon cozido. "Hoje, a cooperativa comercializa o cogumelo em conserva no atacado no valor que varia de R$ 9 a R$ 11 o quilo, dependendo da classificação do produto. Muitos compradores preferem o nosso cogumelo ao invés do chinês, que chega em peso no País, mas é de qualidade muito baixa, devido à utilização de muitos produtos químicos para mantê-lo em conserva durante a viagem", avalia Gomes.
Cultivo
Segundo Gomes, os cogumelos são cultivados em câmaras climatizadas com 40 a 60 metros quadrados de área. O composto com as sementes de cogumelos já chega pronto para os produtores dentro de sacos, que são armazenados nas câmaras de cultivo. Como as estufa têm capacidade para armazenar de 250 a 300 sacos, cada uma produz cerca 450 quilos do produto.
São três ciclos de colheita por saco. Depois que eles acabam, todo o ambiente passa por um processo de desinfecção para receber um novo cultivo, que leva em torno de 60 dias até a próxima colheita.
Depois de colhidos, os cogumelos passam por um processo de lavagem e cozimento na própria propriedade, para então serem encaminhados à cooperativa, onde são empacotados e comercializados. Por enquanto, os produtos são vendidos apenas em conserva para distribuidoras, mas a ideia da Coopertijucas é comercializar o champignon in natura e também em sachês de 100 gramas, que podem ser vendidos diretamente às feiras e supermercados.