Os trabalhadores volantes que movimentavam o comércio das pequenas cidades em épocas de colheita, hoje encontram pouco trabalho, substituídos pelas colheitadeiras. Culturas como algodão e o café já empregaram milhares de pessoas. O Paraná, maior produtor de algodão até meados da década de 90, chegou a empregar, na safra de 1991/92, 235 mil pessoas. Hoje o algodão não oferce trabalho para mais de 9 mil.
Na última safra o Paraná produziu 52% da produção nacional, segundo o agrônomo da divisão de conjuntura do Deral, Maurício Lunardon, em uma área de 704.498 mil ha. Segundo Lunardon, a crise do algodão começou com a abertura econômica do governo Fernando Collor de Mello. ''Os juros baixos para importação fizeram com que as indústrias optassem por importar o produto''.
Para o ex-coordenador estadual da Emater, Rafael Figueiredo, os motivos que levaram ao declínio do algodão são controversos. Ele aponta o aumento do custo de produção, em função das pragas; o preço de comercialização que não acompanhou este custo; problemas na estrutura de recebimento do algodão que estimulava a colheita descuidada.
''O que aconteceu com o algodão no Paraná foi um crime. E a responsabilidade é de todos governo, pesquisa, extensão, produtor'', afirma. Na sua opinião o grande crime está no fato de se tratar de uma ''cultura social das mais importantes do mundo''.
''Todos os segmentos (agroindustrial, proprietários de terras, porcenteiros, mão-de-obra do bóia-fria), se beneficiavam com o algodão. Nenhuma outra cultura promove a distribuição de renda que o algodão promovia'', afirma Figueiredo.
Apaixonado pela cultura, ele afirma que ainda não se mediu o impacto social provocado pelo fim de um ciclo. ''Se falarmos só em trabalhadores volantes, eram mais de 500 mil. Estas pessoas gastam o que ganham no comércio local, não nos shoppings. Acabou com as cidades pequenas que viviam do algodão''.
João Ferrari, comerciante em Santa Cecília do Pavão, conta que muitos comerciantes fecharam seus estabelecimentos com a crise do algodão. ''Eu estou aqui há dois anos, mas sei de muita gente que deixou a atividade'', conta. Ele mesmo trabalhou em lavouras de algodão, mas desistiu e entrou para o comércio.
Segundo Lunardon, o ''fundo do poço'' foi a safra de 96/97. ''A partir daí houve alguma reação e o Paraná quase chegou a ser auto-suficiente, mas voltou a decair na safra seguinte''. Hoje, de acordo com o agrônomo do Deral, o Paraná que junto com São Paulo já foi o maior produtor do Brasil, importa a matéria-prima do Mato Grosso.
''As indústrias de fiação do Estado consomem 85 mil toneladas de algodão em pluma. A produção na safra de 02/03 está estimada em 22.700 mil toneladas'', afirma. A áreea foi sendo reduzida ano a ano dos mais de 700 mil hectares de 10 anos atrás, passou para 28 mil hectares.
Figueiredo afirma que embora não haja um estudo sobre o impacto social, estima-se que a primeira consequência tenha sido a diminuição de renda. Milhares ficaram desempregados; milhares de famílias passaram a ser sustentadas com subemprego.
''Estima-se que 500 mil foram afetados, só de bóias-frias; se for falar em toda a cadeia seriam mais de 1 milhão''. As lavouras mecanizadas, como as de soja, segundo Figueiredo, ocupam apenas um décimo da mão-de-obra do algodão.

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