O Paraná tem a estimativa de colher 2,84 milhões de toneladas de grãos de inverno na safra atual. O volume é 28% inferior ao registrado em 2025, quando o volume alcançou 3,9 milhões de toneladas. Dados do Deral (Departamento de Economia Rural), órgão ligado à Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento), abrangem a produção de aveia, canola, centeio, cevada, trigo e triticale.

O agrônomo Carlos Hugo Godinho, analista do Deral, explica que a redução no volume da safra de grãos de inverno de 2026 foi provocada por adversidades climáticas diretamente associadas ao El Niño, especialmente chuvas mais volumosas e um inverno com temperaturas acima da média.

“As temperaturas mais quentes do que o habitual durante o inverno prejudicaram o desenvolvimento das plantas logo no início do ciclo. Em seguida, a alta frequência de chuvas manteve o céu nublado por longos períodos, o que atrapalhou a fotossíntese.”

O excesso de água, por sua vez, encharcou o solo, dificultando a entrada do maquinário nas áreas de cultivo para a realização dos manejos fitossanitários necessários.

“Sem a devida aplicação de defensivos, associada ao longo período de molhamento contínuo das espigas pela umidade, houve uma forte proliferação de doenças fúngicas. Por fim, no momento do encerramento do ciclo, o solo encharcado impediu o tráfego regular das colheitadeiras e a alta umidade do ar inviabilizou a secagem natural dos grãos no campo para uma colheita adequada”, completou.

As culturas mais afetadas foram o trigo e a cevada, além de reduções expressivas em aveia, centeio e triticale. O trigo, principal cultura do período, teve uma queda de 34% em sua produção, caindo de 2,88 milhões de toneladas em 2025 para 1,9 milhão de toneladas em 2026 no estado, resultado de uma redução de 12% na área cultivada e de uma queda de 18% na produtividade média, que caiu de 54 para 44 sacas por hectare. A cevada deve registrar uma produção de 492 mil toneladas, o que significa uma queda de cerca de 2% frente a 2025, frustrando a expectativa de uma safra recorde que era esperada devido ao aumento de 23% na área plantada.

O plantio da safra de grãos de inverno de 2026 começou entre abril e maio, acompanhando a janela do zoneamento agrícola de risco climático. A expectativa é que em dezembro se encerrem os trabalhos de colheita no estado, sendo que a do trigo já alcançou praticamente 90% das áreas e a da cevada passou da metade.

CANOLA

Na contramão das outras culturas de inverno, o bom desempenho da canola se deu por causa da expressiva ampliação da sua área cultivada no Paraná, que atingiu 6,6 mil hectares (ante 2,7 mil hectares na safra anterior), resultando em uma produção estimada de 11 mil toneladas (mais que o dobro do volume colhido no ciclo passado, de 5,2 mil toneladas).

“A valorização do preço da canola acompanhou a alta da soja no mercado de oleaginosas, visando especialmente a indústria de biocombustíveis e garantindo atratividade financeira ao produtor.”

Do ponto de vista agronômico, por sua vez, a canola apresenta o benefício estratégico de um ciclo precoce, o que viabiliza um excelente encaixe no calendário agrícola do estado e antecipa o retorno econômico, concentrado principalmente no Sul do Paraná, responsável por mais da metade da produção estadual.

No Norte do estado a canola compete em calendário com a segunda safra de milho, limitando a expansão.

“O impacto da safra de 2026 não foi apenas a perda quantitativa de volume em toneladas, mas também a depreciação da qualidade comercial do trigo colhido sob chuva”, destacou o técnico.

O grão sofreu forte perda de PH (Peso Hectolítrico) e de outros atributos importantes, o que fez com que grande parte da produção perdesse o padrão exigido pelas indústrias de panificação e moagem.

“Como consequência, parte do trigo precisará ser desviada para a fabricação de ração animal, trazendo forte frustração de receita para o produtor rural e forçando o setor moageiro local a buscar trigo de fora do estado”, conclui.

PERDA

Produtor de trigo em Tibagi (Campos Gerais), Leendert de Geus Neto já encerrou a colheita de trigo neste ano com 80% do volume sendo de baixa qualidade.

“O tempo influenciou de maneira direta. Excesso de umidade e dias nublados durante o ciclo reduziram o potencial produtivo. No ano passado, o tempo foi excelente e não tivemos nenhuma carga de baixa qualidade”, comparou.

O agricultor acrescenta que, neste ano, as subvenções do seguro rural historicamente subsidiadas pelo governo foram cortadas. “O seguro rural é indispensável para o produtor realizar plantio de culturas de inverno como o trigo, devido ao alto risco de fatores ambientais. Sem o incentivo no seguro e boas políticas agrícolas para produção de trigo, a safra deve encolher ainda mais em 2027, fazendo com que as importações de trigo sejam ainda maiores de países como Argentina e Estados Unidos”, concluiu.

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