Safra 99-2000 já preocupava
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sábado, 09 de dezembro de 2000
Jota Oliveira 
Em meados de maio de 1999, ao discutir o Plano de Safra 99-2000, o Ministério da Agricultura previa dificuldades para o plantio deste ano. A meta do Ministério era, ainda assim, uma colheita de 90 milhões de toneladas de algodão em caroço, amendoim (total primeira e segunda safras), arroz, aveia, centeio, cevada, feijão (total, considerando as três safras), girassol, mamona, milho (as duas safras), soja, sorgo e trigo. Não se atingiu o objetivo: foram colhidos daqueles produtos (somados os de inverno como aveia, trigo, cevada e centeio), 82.786.700 toneladas.
O Presépio, símbolo mais conhecido do Natal, além de Cristo, marca a presença de animais úteis, a serviço do homem, há mil anos. Tanto que os animais viviam protegidos em estábulos. Um jumento, uma vaca, uma ovelha, foram eternizados pelos artistas que, provavelmente naquela época, retrataram Cristo recém-nascido e as primeiras testumunhas não-humanas do Advento.
Desde então muita coisa mudou na agropecuária, porém as mudanças mais importantes ocorreram em cerca de meados do Século 20, quando as sobras de bombas de guerra americanas foram transformadas em venenos utilizados na agricultura, para as fábricas não ficarem ociosas.
O uso em grndes quantidades de insumos chamados modernos, como os agrotóxicos e maquinaria, valeram ao cientista Normam Borlaug o Prêmio Nobel da Paz de 1950. Essa é uma das questões que sobram para o Século 21: o mundo pobre continua pobre e faminto; as tentativas de colocar mais alimento na boca do povo não funcionaram, porque elas foram adotadas, em primeiro lugar, para satisfazer os países industrializados.
Mas, no Século 20 não foram apenas misérias. Houve cerca de 25 anos de prosperidade (dos povos mais prósperos) e agora, já no fim do Século, aumentam os esforços contra a camada de ozônio e outros males ambientais. Por tudo isso, mais a chuva ácida, causada pelas nações mais industrializadas do mundo, esta primavera é tão silenciosa quanto a primavera do livro; vem aí maior escassez de alimentos; menos água apta para beber.
No Século 20 também surgiram o GPS, o controle remoto de plantações; clima e manejo de maquinaria agrícola por computador. O uso de venenos diminuiu e a agricultura orgânica é o setor da economia que mais deverá crescer no Século 21, porque entre outras coisas, o mercado paga prêmios por todos os produtos sem venenos da soja ao café, às hortaliças, onde começou uma revolução verde ao contrário: em vez de insumos modernos, a volta a métodos antigos como o uso de plantas e insetos para controlar plantas e insetos-pragas. Hoje, já são técnicas dominadas o plantio direto, e outras tecnologias de controle da erosão; o trator com ar-condicionado, a uva sem sementes. No Século 21, entrará no mercado a melancia sem sementes. Neste fim de século já se consegue algodão colorido, um dos sonhos da indústria de fiação e tecelagem; no Sul do Brasil foram adaptados peixes dos rios amazônicos, tilápia-do-nilo, camarões gigantes-da-malásia (camarão de água doce) e, nos açudes de Mato Grosso do Sul e Norte do Paraná, já se produzem para pesque-pague, dourados, que são peixes típicos de corredeiras, e pintados. Nas águas mais frias e agitadas da Serra do Mar Atlântica, até se consegue produzir truta.
Conclui-se que, neste final de Século e no começo do Século 21, tem comida no mundo todo, pois o Brasil, com uma piscicultura riquíssima, importa peixes africanos e de outros países pobres. Ao mesmo tempo óleos, fibras, madeira, arroz, soja, milho e trigo, por exemplo, circulam no mundo todo. Comida existe; falta distribuir de modo que todos tenham acesso a ela. E esta não é uma questão secular apenas; a má-distribuição de riquezas vem de muito mais longe no tempo, milhares de anos antes de Cristo.
O autor é editor da Folha Rural.


