Saborosos, certificados e por quê não, baratos?
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Cláudia Palaci<br> Equipe da Folha 
O produto orgânico ou agroecológico (a mais nova definição do mercado) é cultivado sem o uso de adubos químicos ou agrotóxicos. As técnicas de produção são destinadas a incentivar a conservação do solo e da água e reduzir a poluição. Ter à mesa este alimento que faz bem à saúde e ao Planeta é sonho de consumo de qualquer um, mas o orgânico, já conquistou o papel de produto caro em comparação aos ditos convencionais. A diferença entre eles na gôndola de supermercado é mais que o dobro. Na luta para se ter uma alimentação mais saudável, em algumas cidades, o consumidor pode contar com um forte aliado: as feirinhas de orgânicos. Em Curitiba, elas existem desde 1989, organizadas pela Secretaria Municipal do Abastecimento. Quem vai pela primeira vez, impressiona-se. O que o consumidor gastaria no supermercado com hortifrutis com agrotóxicos, ele gasta o mesmo na feirinha.
Não é um milagre e sim uma conta básica: ao comprar direto do produtor, o consumidor evita pagar o lucro do revendedor. No caso das grandes redes, a porcentagem chega a 100%. Em uma feira de orgânicos, em um bairro da capital, uma alface sai por R$ 0,70 e um brócolis por R$ 1,00. Em um grande estabelecimento, os mesmos itens no convencional são comercializados a R$ 1,50 e R$ 2,50. Se forem sem aditivos, não saem por menos de R$ 2,00 e R$ 3,20.
O professor Osmar Geraldo Saragiotto, 43 anos, frequenta há quatro anos as feirinhas. Na capital são sete endereços, quatro dias por semana. O objetivo dele é envelhecer saudável por meio da boa alimentação. ''Só compro na feira. É bom, bonito e barato'', brinca.
A dona-de-casa Iara Mello concorda. ''Tornou-se natural pensar que o orgânico é mais caro. Basta saber onde comprar. Minhas verduras, frutas e legumes duram mais tempo na geladeira e o sabor é diferente. Hoje cerca de 60% da minha mesa é composta com alimentos livres de venenos'', comenta.
Diante da economia, o consumidor deve se lembrar que isso também é possível com os produtos de época ou aqueles ofertados durante o ano todo. O alerta é do representante da Rede EcoVida, Mário Barbarioli, também atuante na Associação de Orgânicos do Paraná (Aopa). ''Como respeitamos a sazonalidade, há certos produtos comprados de agricultores de outras regiões e até mesmo de estados diferentes. Neste caso, há o agravante do frete e das perdas, que encaressem a mercadoria'', esclarece.
Em Bocaiúva do Sul (RMC), o agricultor José Antônio Marfil, produz hortaliças, frutas e cereais. Ele evita comprar produtos de fora da RMC, mas, às vezes, para manter a clientela (já fiel) satisfeita, ''importa'' alguns itens. A barraca de feira é recheada de alguns processados como farinhas, suco de uva e quirelas porque ele mantém uma indústria de embalagem na chácara devidamente ''na lei''. No total são mais de 80 itens. Há dois anos no circuito de feiras na capital, ele vive exclusivamente da produção orgânica desde 1994. Mexia com café no Noroeste, mas a cultura tornou-se inviável no local para a família dele devido ao avanço na cana-de-açúcar e então mudou-se para Bocaiúva do Sul. ''A motivação é produzir dentro de uma concepção de saúde para mim, que não mexo mais com agrotóxico; e também para o consumidor que está mais exigente e preocupado com o bem-estar'', diz o produtor.
Mesmo com a sazonalidade e a ausência de fertilizantes (que dobraram de preço no último ano e pagos em moeda estrangeira, considerados um dos vilões da inflação dos alimentos), Marfil abre a contabilidade: ''Minha produção é pequena e a mão-de-obra é maior''. Explica-se. Ele emprega dois funcionários formais, com registro em carteira de trabalho, e mantém outros dois diaristas a R$ 35 o dia. Dependendo da ocasião, este número pode ser maior. Ele se queixa da quantidade de terra para lidar. ''Tem que carpir todo dia porque não uso veneno para controlar. O adubo utilizado - o esterco -, o caminhão com 15 toneladas de material não sai por menos de R$ 1,3 mil. ''O estreco precisa ser compostado por quatro dias, então eu compro mais que o necessário para não correr o risco de faltar. Com isso, acontece de comprar antes de vender e ficar na espera para o repor o dinheiro em caixa'', comenta.


