Jota Oliveira
De Londrina
O Centro de Pesquisa Agropecuária de Clima Temperado (CPACT, órgão da Embrapa sediado em Pelotas, RS) lançou no final de dezembro de 1999, com o Governo do Rio Grande do Sul, o programa de produção de milho em áreas de arroz irrigado que deve permitir, em três anos, aumento de 155 mil hectares de milho.
O programa envolve a Embrapa, a Secretaria da Agricultura do Estado e a Emater. Outras lavouras, como soja e sorgo granífero, também podem ser rotacionadas com o arroz, nas várzeas, segundo indicações da pesquisa.
A engenheira-agrônoma Marilda Pereira Porto, da Embrapa Clima Temperado, trabalha na Estação Experimental de Terras Baixas e coordena o projeto. Ela diz que, devido ao manejo intenso das áreas de arroz irrigado, os arrozais acabam sofrendo maior incidência de doenças e pragas, das quais se destaca o arroz-vermelho. A entrada de uma alternativa, em rotação (não em sucessão), mesmo uma gramínea como o milho, que exige manejo diferente, quebra o ciclo de pragas e doenças acumuladas pelo monocultivo do arroz.
Além disso e da desinfestação do arroz-vermelho, o milho recicla os nutrientes da área, deixando um retorno de 70% em potássio e retorno significativo em nitrogênio e matéria orgânica. Para o milho é preciso aplicar um herbicida, que desinfestará a área também para o próximo plantio de arroz.
RotaçãoMarilda Porto informa que o milho não será plantado depois da colheita do arroz, mas, sendo também uma cultura de verão, é cultivado na mesma safra, em rotação, nas áreas que em determinado ano (neste, por exemplo) não estão ocupadas pelo arroz. Isso deve ser feito porque no Rio Grande do Sul faz frio e o milho é uma cultura sensível às baixas temperaturas. Não existe, portanto, a possibilidade de duas safras de verão seguidas.
O milho é sensível também ao alagamento, principalmente na fase inicial do cultivo, ou seja, no desenvolvimento vegetativo. Ele pode ocupar áreas onde se cultiva, alternadamente arroz irrigado, mas esse solo precisa ser bem drenado, de modo que o milharal não fique na água. A drenagem deve funcionar para o terreno ficar seco em seguida à irrigação. As áreas de arroz irrigado já têm estrutura para isso, além dos canais de irrigação, mas para o milho a drenagem precisa ser ainda mais eficiente.
‘‘Se o sistema de drenagem for bem feito nas áreas para arroz irrigado, será possível utilizar ainda a rotação com soja, sorgo granífero e outras lavouras’’, acrescenta a pesquisadora. Ela explica que no Rio Grande do Sul escolheu-se primeiro o milho, porque o Estado é importador desse grão, enquanto o Paraná vive uma situação diferente, pois daqui se exporta milho. Marilda Porto diz que rotação arroz irrigado-soja seria melhor, porque essa é uma leguminosa, portanto facilitaria o controle de pragas e doenças de uma gramínea como o arroz. No entanto, na soja usa-se controle químico de pragas e doenças e isso precisa ser bem cuidado.
O Rio Grande do Sul cultiva por ano cerca de 900.000 hectares de arroz irrigado. É, praticamente, toda a área rizícola do Estado. O arroz de sequeiro é cultivado em áreas pequenas, para consumo próprio de famílias rurais que utilizam esse sistema. Do milho são 1.300.000 ha, 95% em terras altas. O arroz irrigado é 45% do total desse alimento produzido no País.
Mais estudosO pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná, Antônio Carlos Gerage, acha uma idéia interessante, já que praticamente não existem opções para acompanhar o arroz irrigado como fonte econômica na mesma área. No entanto, ele sugere mais estudos a respeito e a adoção de variedades de milho que possam sobreviver e produzir sob condições de alagamento.
O Centro Nacional de Pesquisoa de Milho e Sorgo, também da Embrapa, desenvolveu uma variedade de milho com aquela característica, significativamente denominado ‘‘saracura’’. Mesmo essa variedade, porém, não pode viver totalmente sob condições de encharcamento. É preciso manejar esse milho sob as novas condições.
Existem alguns pontos a ponderar, acrescenta Gerage, porque 1) seriam duas gramíneas plantadas uma após a outra, prática agronomicamente não recomendável; 2milho não tolera encharcamento.
O Paraná plantou, na safra passada (1998/99) 65.999 hectares de arroz de sequeiro e 16.000 ha de arroz irrigado. A previsão do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento para os plantios 99/2000 era, na última semana do ano passado, de repetição daquelas áreas. A produção prevista, no entanto, variava para menos no sistema sequeiro (de 117.000 para 104.00 toneladas ou, na melhor das hipóteses, 116.000 t) e para menos (66.800 t para 144.000 t) ou para mais, podendo no melhor dos casos alcançar 72.000 t.