Risco no abastecimento nacional
Cristina Côrtes
De Londrina
Arroz, trigo e milho, originários de outros países, são metade do cardápio diário do brasileiro. Esta concentração no consumo de poucas espécies na alimentação humana é um risco, e a preservação de recursos genéticos é considerada uma questão estratégica, afirma o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), Rui Mendes. A segurança alimentar será o tema central de simpósio que reunirá pesquisadores da América Latina e Caribe.
Plantas originárias no Brasil, como a mandioca, que contribui com apenas 7% para a alimentação da população, podem um dia ser alternativas importantes. Entre os recursos genéticos originários do Brasil estão ainda o amendoim, o cacau, a seringueira, a castanha-do-Brasil, o caju e o abacaxi, entre outros.
SimpósioEstes e outros temas serão discutidos de 21 a 26 deste mês, no 2º Simpósio de Recursos Genéticos para a América Latina e Caribe SIRGEALC, no Parlamundi, em Brasília. A promoção é do Cenargen.
O SIRGEALC debaterá a conservação e o uso dos recursos genéticos vegetais, animais e de microorganismos. A programação do evento foi elaborada para refletir o tema Recursos genéticos: segurança alimentar para o 3º Milênio, a fim de chamara atenção das autoridades dos 37 países da América Latina e do Caribe para a importância dos Recursos Genéticos e a necessidade de mais investimentos para a sua conservação. Segundo assessores do Cenargen, os microorganismos, integrantes fundamentais da diversidade biológica, normalmente, são esquecidos nas manifestações em defesa do meio ambiente.
Os recursos genéticos compreendem a diversidade de todo o material genético das variedades primitivas ou tradicionais, e das mais modernas, além dos parentes silvestres das espécies cultivadas ou linhagens primitivas que podem ser usadas no presente ou no futuro para a alimentação, agricultura e outros fins.
A continuação da vida humana neste planeta depende dos recursos genéticos. Portanto, a sua conservação e o estudo dos genes neles contidos são estratégicos para satisfazer às crescentes demandas alimentares da população mundial.
A América Latina e o Caribe têm fornecido para o mundo espécies vegetais vitais para a humanidade: milho, feijão, tomate, batata, batata-doce, dezenas de frutas, palmeiras, flores e plantas ornamentais, entre outras. Acrescentem-se os recursos genéticos de espécies animais de grande potencial como a capivara, a lhama, o guanaco, aves diversas e uma infinidade de microorganismos que devem ser preservados e estudados.
Erosão genéticaSegundo o pesquisador Rui Mendes, ao longo dos anos tem acontecido um estreitamento de opções na alimentação humana, o que tem levado à perda de genes, chamada pelos pesquisadores de erosão genética. Quando surgiu a agricultura, há aproximadamente 10 mil anos, o homem consumia 500 fontes diferentes de alimentos. Atualmente, no mundo todo, a alimentação está restrita a 30 espécies, comenta Mendes.
Este afunilamento não é bom por causa da vulnerabilidade genética, explica o pesquisador. Doenças e pragas podem dizimar determinadas espécies, e a pesquisa só pode buscar resistência nas velhas espécies. Mendes cita como exemplo o caso ocorrido por volta do Século 17, na Irlanda. Na época, a batata, originária dos Andes, era a base da alimentação da população, e uma praga destruiu seus plantios, matando de fome milhares de pessoas e obrigando outros milhares a fugir para a América. Se não preservarmos hoje, talvez não tenhamos opções de resgatar plantios no futuro, alerta Mendes.
No Brasil já aconteceu, por exemplo, problemas com plantios de laranja na década de 30, quando mais de 10 milhões de pés foram destruídos pelo vírus da tristeza. O problema foi solucionado porque foram usadas outras variedades, para fazer os porta-enxertos.





