Risco de poluição dos aquiferos
Cristina Côrtes
De Londrina
A Embrapa Meio Ambiente, localizada em Jaguariúna (SP), está fazendo estudos sobre a movimentação vertical de pesticidas e fertilizantes em direção às águas subterrâneas. A preocupação dos pesquisadores é a contaminação do Aquífero Guarani, considerado o maior reservatório de água do Planeta.
Ocupando área de 1,3 milhão de metros quadrados, essa reserva está localizada abaixo de oito Estados brasileiros e mais três países vizinhos: Paraguai, Uruguai e Argentina. Na semana passada o pesquisador Antônio Luiz Cerdeira, da Embrapa Meio Ambiente, participante do projeto que estuda a reserva, esteve em Londrina para discutir com outros estudiosos quais as condições das áreas de recarga do aquífero no Paraná. Área de recarga é por onde entra a água que reabastece o aquífero, e também é a área mais vulnerável para contaminações, porque fica mais exposta.
Difícil recuperaçãoSegundo Cerdeira, se houver contaminação, a recuperação é muito difícil porque este tipo de aquífero é confinado e de difícil acesso. Daí a preocupação com medidas preventivas.
Em São Paulo esse tipo de estudo das áreas de recarga já foi feito na região de Ribeirão Preto e existem recomendações para os produtores de cana, atividade que ocupa aquela área, para que mudem os produtos químicos que estão utilizando. Nossa preocupação maior é com o uso de herbicidas e fertilizantes, porque têm um efeito residual maior no solo, explica Cerdeira.
A natureza levou milhares e milhares de anos para formação deste aquífero que contém 50 quatrilhões de litros de uma das águas mais puras do Planeta. Quantidade superior à água que corre por todos os rios existentes no mundo, ao longo de um ano, que somadas atingiriam 43 quatrilhões de litros. Em termos de abastecimento esta quantidade de água seria suficiente para atender a população do mundo inteiro por uma década.
Segundo Cerdeira, o Guarani é quase uma fonte inesgotável de água, porque o aquífero é abastecido pelas chuvas. Só corremos risco de desabastecimento se mudar o regime de chuvas da Terra, diz. E a preocupação fica mesmo por conta do uso do solo. É necessário uma forma mais segura de praticar a agricultura, e o produtor tem opções para interferir menos no meio ambiente, argumenta. O pesquisador comentou que algumas regiões no Estados Unidos já estão com as águas subterrâneas comprometidas em função do uso pesado de adubos e herbicidas.
ParanáNo Paraná a área de recarga está localizada em trechos próximos a serra do cadeado, e segundo o géologo e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), André Celligoi, o risco de contaminação no Estado é menor, porque as áreas de recarga são mais estreitas do que na região de São Paulo, e existem poucas ou quase nenhuma exploração agrícola no trecho formado por composições rochosas.
O aquífero Guarani, mais conhecido no Paraná como Botucatu, ocupa mais da metade da área do Estado, e teria condições de abastecer com água de qualidade muitos municípios. Mas, de maneira geral, poucas pessoas se beneficiam dessa água. Em toda a região que abrange o aquífero no Brasil, apenas 15 mil poços artesianos estão instalados. Apenas um município com população maior do que 500 mil habitantes se beneficia Ribeirão Preto (SP).
O aquífero Guarani é mais conhecido no Paraná como aquífero Botucatu. Segundo Celligoi, a denominação Guarani surgiu mais recentemente, por causa do Mercosul, e da nova tendência de falar da questão da água de uma forma mais abrangente (ver box).
Tipos de poçosSobre algumas informações de que poços na zona rural próxima de Londrina estejam contaminados, o professor comentou que provavelmente são poços superficiais. A água do Botucatu está preservada, garante.
Para comprender melhor de que água estamos falando, o professor explicou que existem vários tipos de poços, e a forma de perfuração pode prejudicar a qualidade da água. O aquífero freático é a primeira água que se encontra quando o solo é escavado. É raso e vulnerável e bastante explorado em chácaras e nas periferias das cidades. É conhecido como poço cacimba ou escavado, e é o mais contaminado.
Depois, logo abaixo é encontrada uma laje de rocha, constituída de basalto, mais difícil de ser perfurada. A água desce pelas fraturas dessa laje e forma o aquífero chamado Serra Geral, diz Celligoi. A água nesse ponto é natural, limpa e íntegra. Ele é acessado a aproximadamente 80 ou 100 metros abaixo da superfície.
Segundo o professor, este tipo de poço é chamado erroneamente de artesiano, mas o artesiano mesmo é aquele que atinge o aquífero confinado, no caso Botucatu, e tem pressão mais alta do que a atmosférica. Depois destas explicações, o professor conclui que, se nestes poços chamados artesianos, a água estiver contaminada, é devido a alguma fissura no aquífero freático, que acaba comprometendo a água com infiltrações. É fundamental fazer um estudo geológico da área antes de perfurar poços e contratar uma empresa competente, avisa.
PreservaçãoPara André Celligoi que tem mestrado sobre águas subterrâneas na região de Londrina e está fazendo doutorado sobre o Aquífero Caiuá, é preciso preservar as áreas mais altas das propriedades, como pequenos morros e elevações, porque é também através desses pontos que o reservatório é abastecido. A vegetação nesses locais deve ser mantida, e se já foi retirada, deve ser recuperada, alerta.Os impactos causados pela exploração agrícola na qualidade das águas subterrâneas estão sendo estudados
Dorico da SilvaO uso da água estará na raiz de futuros conflitos entre países, e é um dos recursos naturais que mais preocupam organismos internacionaisO professor da UEL André Celligoi defende a necessidade de estudos geológicos antes de qualquer perfuração





