Reter, para recuperar preços Jota Oliveira No momento em que o mundo colhe uma safra pequena e apesar disso os preços caem significativamente, de US$180,00 a saca de 60 quilos para US$100,00, os países produtores resolvem acionar o mecanismo de retenção de estoques e assim enxugar o mercado internacional. Os preços estão caindo devido, entre outros problemas, à desorganização dos países produtores (demonstrada pela recente venda ao mercado internacional do estoque mexicano de 1,5 milhão de sacas), e pela aproximação do verão no Hemisfério Norte, quando naturalmente diminui o consumo da bebida. Reunidos dia 14/3, em Brasília, o Ministro da Agricultura do Brasil, Marcus Vinicius Pratini de Moraes e o presidente da Federação Nacional dos Cafeicultores da Colômbia, Jorge Cardenas Gutierrez, decidiram tomar a iniciativa de levar à Associação dos Países Produtores de Café (APPC) proposta de uma retenção mundial de estoques. Com isso, Brasil e Colômbia esperam aumentar o preço da saca dos atuais US$100,00 para US$150,00. Os países reunidos na APPC exportam anualmente 70 milhões de sacas, mas o objetivo é reter apenas de 4 a 6 milhões de sacas na safra 2000/2001. O secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, Paulo César Samico, disse à imprensa, nesta semana, que a queda de preços ocorre justamente quando a Colômbia, segundo produtor mundial, anunciou quebra de 4 milhões de sacas e o Brasil, maior produtor, deve sofrer quebra superior a 10 milhões de sacas. Samico disse que representantes do Brasil e da Colômbia deverão definir em abril, com as demais nações produtoras, na sede da APPC em Londres, o programa de retenção. Se for aprovado por todos os países-membros, o programa vigorará a partir de maio. Um esquema de retenção para equilibrar os preços do café no mercado mundial fora adotado pela Organização Internacional do Café (OIC), mas em 1º de julho de 1989 romperam-se as cláusulas econômicas dessa organização. Entre essa achava-se a cláusula que estabelecia cotas trimestrais e os preços mínimos e máximos para o café no mundo, lembra o cafeicultor Wilson Baggio, diretor de café da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) e presidente do Sindicato Rural de Cornélio Procópio. Quando foram suspensas as cláusulas econômicas, países produtores, sem cotas, inundaram o mercado de café. Os preços cairam para US$40,00 a saca de 60 quilos em 1991, 92 e 93. Era necessário adotar alguma estratégia em defesa de melhores cotações e em 23 e 24/9/93, em Brasília, 35 ou 38 nações criaram a Associação dos Países Produtores de Café. Baggio, presente no ato, lembra que a criação da associação foi traballho do então Ministro da Agricultura, José Eduardo de Andrade Vieira. A APPC criara o sistema de retenção de estoques, para enxugar o mercado nas baixas e impedir as altas exageradas. Com a associação começou a recuperação de preços, mas em 94 uma grande geada, principalmente no Paraná, matou café e, recorda Baggio, os preços se recuperaram por uma questão de mercado. Agora voltaram a descambar, exigindo a reaplicação da estratégia de diminuir a oferta, para melhorar os preços. É uma questão de mercado, quando o Brasil participa do mercado mundial com apenas 20% das exportações totais, em vez dos 30% de anos atrás. O autor é editor da Folha Rural.