‘‘Moro aqui há 50 anos e vai ser um transtorno ter que mudar minha casa e minhas coisas de lugar. Vai ser difícil. Mas não posso fazer nada’’. É assim que a produtora Francisca Talma do Nascimento, de 78 anos, encara a possibilidade de inundação de parte do Sítio Santo Antônio para a formação do reservatório da Usina Hidrelétrica (UH) Jataizinho - uma das sete usinas projetadas pela Copel para a Bacia do Rio Tibagi. Localizada cerca de 5 quilômetros acima da ponte que liga as cidades de Jataizinho e Ibiporã, a usina será responsável, junto com a UH Cebolão (entre Londrina e Assaí), pelo represamento do Tibagi no Norte do Estado.
Onofre Viana: benefício para todosCom 14,5 hectares, o Sítio Santo Antônio terá cerca de 30% - quatro hectares - de sua área inundada. E essa é uma das poucas informações que Francisca tem sobre o assunto. ‘‘Será que a água vai cobrir minha casa?’’, pergunta, preocupada. A agricultura praticada na propriedade é de subsistência. Além da horta, a área é destinada às culturas da soja, do milho e do trigo. ‘‘Enquanto a usina não sai, vamos continuar na lida. Não dá para planejar, não sabemos exatamente o que vai acontecer’’, diz Sandra Silvério do Nascimento, nora de Francisca. A preocupação está no risco de ter que sair do campo. ‘‘Sempre trabalhamos com agricultura. É o que sabemos fazer’’, diz.
ImpactoSérgio Sayão: oitenta e cinco poor cento da área a ser inundada são destinados à agropecuáriaEm situação parecida está o agricultor Onofre Fernandes Viana, 52 anos. Proprietário do Sítio Santa Luzia, de 11 hectares, Onofre Viana terá parte de sua terra inundada. ‘‘Só não sei quando e quanto. Pelas informações dos técnicos da Copel, que estiveram aqui, as águas vão atingir minha casa e sobem até um pedaço da lavoura’’, diz.
ImpactosApesar de não terem idéia de como a situação vai ficar depois da construção das barragens, Francisca do Nascimento e Onofre Viana não são contra as obras. ‘‘Vai ser um benefício para todo mundo. Energia elétrica é muito importante, por isso não vou querer impedir nada’’, diz Onofre.
Os sítios Santo Antônio e Santa Luzia são apenas dois exemplos, porque cerca de 310 propriedades serão atingidas pelo represamento do Rio Tibagi no Norte do Estado. A formação dos reservatórios das usinas Jataizinho e Cebolão atingirá 4040 hectares. O geógrafo Sérgio Ricardo Sayão explica que o impacto maior da construção das duas usinas será realmente na agropecuária. Segundo ele, da área total a ser inundada, cerca de 69,3%, ou 2800 ha, são utilizados na agricultura e 16% são pastagens. As principais lavouras afetadas serão as temporárias - o milho, a soja e o trigo.
Local previsto para construção da barragem da UH JataizinhoSérgio Sayão explica que o alagamento das duas usinas afetará propriedades rurais dos municípios de Assaí, Ibiporã, Jataizinho, Londrina e São Jerônimo da Serra. Conforme informações do coordenador de Impactos Ambientais da Copel, Milton Ferreira, das 310 propriedades atingidas, cerca de 78 serão inviabilizadas (com 70% da área inundada) e oito totalmente submersas. ‘‘A hidrelétrica Cebolão terá impacto menor em áreas agricultáveis, por causa da topografia da região’’, afirma.
Ferreira explica que a Copel tem buscado esclarecer a população diretamente atingida. Em 1997, foram realizadas reuniões com os proprietários. ‘‘Cada um recebeu um mapa ampliado da propriedade, com a delimitação e o cálculo em hectares da área a ser atingida, bem como informações gerais sobre área de alagamento, processo de negociação e etapas de empreendimento’’, afirma. Os valores indenizatórios ainda não foram definidos. ‘‘Somente na etapa posterior à aprovação da obra pelos órgãos governamentais competentes é que será feito um cadastro técnico’’. Segundo ele, os agricultores que tiverem as propriedades atingidas receberão a indenização antes da formação do reservatório.
Conforme dados do Deral, o valor médio das terras agrícolas nos municípios atingidos pelo alagamento do Tibagi é de R$2.100/ha. As terras mais caras ficam no município de Ibiporã, onde o hectare é avaliado em R$2.800. As indenizações, entretanto devem cobrir o valor da terra, bem como as benfeitorias de cada área alagada.
ReassentamentoPara evitar impactos sociais graves, como a migração dos produtores para a cidade, serão criados programas de reassentamento. Conforme os estudos prévios necessários ao licenciamento ambiental dos empreendimentos - Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto no Meio Ambiente (Rima) - a população diretamente afetada deve ser reassentada, ‘‘no mínimo em condições de qualidade de vida idênticas às existentes antes da implantação do empreendimento’’.
‘‘Isso consta no EIA/Rima e, portanto é garantia de que será feito independente da empresa que realizar as obras, pois já consta no custo do empreendimento’’, diz Ferreira.

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