Morretes - De um poço de lama aberto em pasto em meio às montanhas de Morretes, no Litoral do Estado, começam a emergir chifres duros e curvados sobre cabeças enormes e olhos desconfiados, selvagens. Um a um, surgem silenciosos búfalos; caminham devagar, quase sem reação ao ambiente; são dezenas. O couro negro está coberto de lama; esta serve como alívio para o clima tropical úmido do Litoral – sempre abafado, molhado e
muito quente.
  Além do açude cheio de barro, árvores são espalhadas pelo piquete. As sombras são uma forma de proteger a pelagem negra do sol. As poucas glândulas sudoríparas são um agravante para os bubalinos, que não conseguem fazer uma troca de calor tão eficiente quanto a dos bovinos. Ainda assim, os búfalos são animais grandes, brutos e resistentes. Apesar disso, não são tão populares entre os criadores.
  A maior concentração de búfalos do Paraná está no Litoral do Estado. O buraco lamacento onde os animais repousavam fica em uma fazenda de pé-de-serra do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), um dos órgãos do Estado responsáveis por criar, estudar e estimular a produção da espécie, muitas vezes tida como indócil, pouco rentável e de difícil manejo. Os estudos do Instituto e a experiência de criadores, porém, provam o contrário. Tanto é que o Iapar juntamente com Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento (Seab) querem fazer o rebanho paranaense crescer, espalhando para outras regiões do Estado a criação de bubalinos.
  No Litoral, já não há mais espaço para os rebanhos. Apesar da imagem negativa – de animal agressivo, desvastador, insaciável, faminto –, criadores e técnicos afirmam que todo o lado selvagem dos bubalinos pode ser domado no manejo. O bom tratamento resulta em animais mansos, cujo as qualidades se ressaltam ainda mais nos números da produtividade do rebanho.
  Além de custar menos que o bovino comum, os búfalos engordam mais rápido, produzem mais leite (produto de fabricação da nobre e cara mussarela de búfala) e dão uma carne saudável, procurada e escassa no mercado. Estas são as principais qualidades dos bubalinos, garante o pesquisador da área de zootecnia do Iapar, José Lino Martinez.
  Há 16 anos estudando búfalos, Martinez é um entusiasta da espécie. ‘‘Indicadores zootécnicos de dados coletados por 20 anos mostram que os bubalinos são superiores aos bovinos’’, garante. Este indicadores dizem respeito ao número de natalidade e mortalidade, peso ao desmamar, intervalo entre partos, produção de carne e leite, entre outros.
  Em todos os quesitos, os búfalos apresentam melhores resultados. ‘‘E tudo isso em condições de solo e clima que são restritivas’’, reitera Martinez, referindo-se ao Litoral. Com bases nesses indicadores, ele reforça a necessidade de expandir a criação para outros regiões. ‘‘As potencialidades dos búfalos não dependem do clima, como se pensa’’, afirma o especialista.
  Estas potencialidades, explica o estudioso, estão nos resultados de produção em relação ao baixo custo de produção. Segundo Martinez, a taxa de natalidade de bovinos fica em 50% , ou seja, cada 100 vacas produzem 50 bezerros. Já dados coletados pelo Iapar mostram que entre os búfalos essa taxa chega há 85%. ‘‘Só esta taxa de natalidade garante uma produção maior de carne’’, compara.
  O técnico diz ainda que, em relação aos bovinos, os búfalos são menos exigentes quanto à alimentação, mais resistentes à doenças e as fêmeas produzem mais leite, que por sua vez produz mais queijo. ‘‘Com 10 litros de leite de búfalo se produz dois quilos de queijo, enquanto com a mesma quantidade de leite bovino se produz um quilo. O rendimento é muito bom por causa da composição do leite’’, explica Martinez. Ele diz ainda que a carne de búfalo é menos gordurosa e, portanto, mais saudável.
  Mesmo com os benefícios, a produção de bubalinos ainda é pequena no Brasil e no Paraná. No País, o rebanho de búfalos é pouco maior que 1,1 milhão de cabeças, enquanto o de bovinos chega à mais de 170 milhões, segundo números do Ministério da Agricultura. O Paraná tem 10 milhões de cabeças de gado e 34 mil de bubalinos.
  A razão da disparidade, acredita Martinez, está na falta de mercado para comercialização de produtos vindos de bubalinos. Como não há mercado, não há produtores – e o problema torna-se uma círculo vicioso. ‘‘Há a necessidade de criação desse mercado. Há uma demanda, mas não há produção’’, diz Martinez.
  O único meio de formar o mercado, acredita, está em um programa de estímulo por parte do governo. ‘‘Uma fórmula que já foi adotada com caprinos é a distribuição de pequenos rebanhos para os produtores. O que existe é uma necessidade de organizar programas para difundir a espécie’’, diz.

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