"Quem foi acarpiano, não deixa de colaborar com a empresa", diz Élcio Rampazzo, que está deixando a Emater depois de quatro décadas
"Quem foi acarpiano, não deixa de colaborar com a empresa", diz Élcio Rampazzo, que está deixando a Emater depois de quatro décadas | Foto: Saulo Ohara


Projetar qual seria a evolução da agricultura paranaense nas últimas décadas sem o método de pesquisa e extensão rural trabalhando em sinergia é quase um exercício de imaginação. Iapar e Emater – juntamente a tantas outras entidades públicas e privadas parceiras – atingiram resultados significativos, mudaram a percepção e atuação do produtor do Estado dentro da propriedade rural, e participaram de toda a revolução que o agro viveu no Estado e no País.

Extensionistas e pesquisadores de longa data, que chegam em 2018 com uma bagagem enorme, estudos internacionais, conhecimento arraigado, mas tem contra eles o tempo, sempre implacável. Em março, o governo estadual autorizou o Plano de Demissão Voluntária (PDV) para Emater, que teve a adesão de 291 trabalhadores. Ingressam no lugar deles 255 novos extensionistas, que tomam posse agora em julho e começam a atuar em agosto, entre eles agrônomos, assistentes sociais, economistas, engenheiros de alimentos, pesca, florestais, veterinários, zootecnistas e técnicos agrícolas. Uma economia de R$ 23 milhões na folha salarial do Instituto, já computada às novas contratações.

Mas neste momento, que é natural dentro de muitas instituições, uma situação incomoda. Essa transição entre os profissionais que estão deixando o Instituto e os que estão ingressando acontece de forma, digamos, abrupta. A descontinuação de projetos e dissipação de conhecimentos adquiridos ao longo de décadas é uma preocupação real. Já no Iapar, pesquisadores temem que com seu desligamento - alguns deles continuam atuando como voluntários mesmo após a aposentadoria - trabalhos de pesquisas sejam interrompidos. Um sinal amarelo para ambas as entidades que precisa ser debatido. A renovação precisa ser feita com eficiência e inteligência.

O novo presidente da Emater, Richard Golba, é funcionário de carreira da entidade desde 1984 e assumiu o posto do ex-diretor, Rubens Niederheitmann, que aderiu ao PDV. Ele relata que a entidade tem clareza que essa fase de transição é muito delicada, que exige cuidados na gestão. "Tomamos muitos cuidados de minimamente conseguir reter conhecimentos, criamos uma ação de gestão, que chamamos de 'retenção do conhecimento'. Na medida do possível, fez-se um trabalho com cada um nesse sentido. Claro que é imperfeito, é uma bagagem que cada um carrega na sua mente, alma, espírito, modo de agir...mas foi feito um esforço", explica ele, em entrevista à FOLHA.

Golba relata que a ação funciona como uma aproximação maior dos profissionais que estavam saindo com os que permaneceram. "Fizemos isso para captar e obter conteúdos. Eles também deixaram muita coisa por escrito. Agora estamos criando também um projeto chamado extensionista voluntário, nos moldes do Iapar, em que eles não serão remunerados e farão ações eventuais. Estamos em fase de construção do processo legal e certamente vamos implementar. Acredito que vai haver um interesse em participar do projeto. A maioria deles têm uma relação afetiva com a instituição. As pessoas saíram porque tinham que sair", complementa.

DESAFIOS PARA OS NOVOS

Em relação aos profissionais que estão ingressando, Golda relata que um dos propósitos é a consolidação de uma agenda estratégica que foi construída em 1993, segundo ele um "documento de vanguarda", que precisa ser internalizado pelos novos funcionários. "Temos três grandes diretrizes: prestar assistência técnica, gerir políticas públicas e articular assistência técnica e extensão rural. Vejo que o nosso grande desafio está nesse último quesito. O cenário é muito diferente de 40 anos atrás. Temos um arcabouço de conhecimento, de conteúdos tecnológicos, que não são de domínio da Emater. Ele está nas cooperativas, nas empresas de planejamento, nos órgãos de pesquisa...estamos preparando os extensionistas para articular tudo isso em benefício do público."

Para o presidente da entidade, a Emater tem sim potencial para manter sua representatividade nos próximos 40 anos. "O extensionista tem que ser um bom articulador para ser um bom agente de mudanças. Precisa agregar indivíduos, organizações, competências, de uma maneira cooperativa, atuar ajudando a comunidade, municípios, (além de) construir e executar bons planos."

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