Relíquias do campo
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sexta-feira, 08 de setembro de 2006
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
O agropecuarista Claudio Ataliba Resende, 46 anos, não precisa fechar os olhos para rememorar os bons tempos da infância vivida na Fazenda Santa Irene, em Cornélio Procópio. Basta olhar para o velho Fiat 70 CI, 1966, que as lembranças voltam num piscar de olhos. ''Lembro até hoje quando meu pai trouxe o trator para casa. Eu era moleque e meus olhos brilharam ao vê-lo trabalhar'', conta.
Passados exatos 40 anos, o antigo trator de esteira ainda ''faz parte da família Resende'', diz o produtor, para quem a relação entre o agricultor e a máquina é sempre ''de amor e ódio''. ''Ódio quando quebra e amor quando a máquina faz o trabalho perfeito. Às vezes tenho até ciúme se outro tratorista dirige meu 66'', explica.
Aos 10 anos, Resende mudou-se para Londrina com a família para estudar. Formado em veterinária anos depois, retomou os trabalhos no campo e hoje, em parceria com os dois irmãos, toca um total de 800 alqueires dedicados à pecuária de corte. Cem alqueires são cultivados com grãos, usados na fabricação de silagem para o gado.
Nos 330 alqueires da Fazenda Santo Antônio, na divisa entre Cornélio Procópio e Santa Mariana, o velho Fiat 66 descansa ao lado de um Massey Ferguson de 1970 depois de anos de labuta. ''Ele foi responsável pela transformação da propriedade. No início, veio para derrubar o mato que deu lugar ao cafezal. Depois auxiliou na reforma da pastagem, além de construir estradas e represas'', recorda o agropecuarista que ainda usa a máquina para serviços leves.
Por ser o xodó da família e dos funcionários, Resende nem pensa em se desfazer do trator. A manutenção é constante, assinala, mas não é cara. ''É difícil achar algumas peças. Tem caso em que é preciso mandar fazer e a qualidade nem sempre é a melhor'', constata.
Segundo o agropecuarista, ''o trator foi ficando, foi ficando e hoje vale tão pouco que não compensa vender''. ''Nem pretendo colocar preço, porque vai que alguém decide pagar e aí terei de vender. Isso nunca'', brinca.
A poucos quilômetros de Cornélio, no distrito da Warta, Zona Norte de Londrina, o agricultor José Geraldo Casaroto lamenta não poder renovar a frota agrícola. O trator mais antigo é um Ford 1987 que ainda é utilizado na condução dos 150 alqueires cultivados com grãos. A família conta ainda com duas colheitadeiras, adquiridas em 1990 e 1991, ''que estão na hora de trocar'', reforça.
Sem capital para investir em novos equipamentos devido à crise agrícola, Casaroto cuida com esmero das ferramentas que ainda possui. Faz sozinho a revisão anual das colheitadeiras e procura a assistência técnica somente em casos extremos. ''A mão-de-obra familiar reduz em até 50% os gastos com revisão e regulagem'', calcula.
Toda a frota foi montada devagar e a última aquisição do produtor foi um trator 2005. Desde então, ele não conseguiu renovar os maquinários. Por enquanto, para ele, importante mesmo é cuidar da família. ''Relíquia é trator novo'', sentencia.


