Registro vai impedir falsificações
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de dezembro de 1996
Silvana Leão 
Os consumidores de mel de Londrina já podem adquirir o alimento sem medo de estarem comprando melado, xarope ou qualquer outro produto que não seja aquele produzido a partir do néctar das flores. Há mais de um ano o Serviço Municipal de Saúde, através do Departamento de Vigilância Sanitária, vem liberando o registro provisório de produtores interessados em comercializar mel em qualquer ponto de venda da cidade. O Serviço de Inspeção Municipal (SIM), que também fiscaliza outros tipos de alimentos artesanais, deverá ser regulamentado através de decreto no início do próximo ano.
Na prática, o selo do SIM significa para o produtor a possibilidade de ampliar suas vendas, e para o consumidor a garantia de qualidade. No caso específico do mel, esta garantia ganha dimensões ainda maiores, pois se trata de um produto que, por um lado, é relativamente caro, muito visado pelos falsos produtores que estão sempre à procura de uma maneira fácil de aumentar os lucros; de outro lado, trata-se de um alimento que dificilmente acusa, a olho nu, adulterações na sua composição.
Mudanças Segundo o veterinário Antonio Tadeu Ribas Fist, da Vigilância Sanitária do Município, o produtor que quiser sair da clandestinidade deve requerer a licença sanitária, que só é liberada depois de tomadas algumas providências. Entre elas estão a adequação do local de manipulação do mel (chão e paredes azulejados, para facilitar a limpeza, além de forro para evitar entrada de sujeira), uso de equipamentos impermeáveis (aço inox e plástico) e embalagens apropriadas para alimento (plástico ou vidro), adoção de rótulo de identificação do produto e análise laboratorial frequente. Para a liberação da licença, a Vigilância faz constantes visitas ao produtor, até que tudo esteja dentro das normas. Depois de liberado o registro na Secretaria da Saúde, as visitas para sua renovação passam a ser anuais.
Antes de ser criado o Serviço de Inspeção Municipal, só existiam duas modalidades de registro, o estadual e o federal, dificultando muito a comercialização por pequenos produtores. Num primeiro momento, a adequação do sistema de produção às normas sanitárias significa gastos para o apicultor. Mas o investimento é compensado pela tranquilidade de poder comercializar o mel em qualquer local dentro do município e pela certeza de poder oferecer um produto de qualidade ao consumidor.
Ampliando o mercado A iniciativa também representa, para os produtores que sempre encararam a atividade com profissionalismo, a chance de tirar do mercado os falsificadores de mel, que trabalham, na maioria das vezes, vendendo o produto nas portas das casas. O mais antigo apicultor de Londrina, Dirceu Maciel Andrade, é um dos que elogiam a criação do registro municipal. Há 35 anos na atividade, ele comemora a possibilidade de colocar seu produto em locais antes proibidos, como as grandes redes de supermercados.
Maciel, que produz até seis mil quilos de mel por ano, sempre limitou suas vendas a feiras-livres, exposições agropecuárias e indústrias que utilizam o mel como matéria-prima para a fabricação de outros produtos. Gastei em torno de R$ 4 mil com as novas instalações e com os equipamentos. Mas como fui comprando aos poucos, agora estou sossegado, porque sei que vão durar para o resto da vida, diz o apicultor, referindo-se à nova centrífuga, aos armazenadores e ao escorredor de aço inox.
Dirceu Maciel explica também que, agora, as peneiras devem ser de nylon e os baldes de plástico, para não enferrujarem e comprometerem a qualidade do mel. Foi uma verdadeira limpeza, resume, satisfeito com as mudanças.
Outro apicultor de Londrina, Durval de Andrade, comercializa mel na cidade há 20 anos e atualmente aguarda a liberação do registro no SIM. Andrade, que já tem registro no Conselho Regional de Medicina Veterinária, afirma que fez as adequações nas instalações e as análises exigidas pela Vigilância Sanitária. Ele acha que no início do próximo ano deverá estar com tudo regularizado.
Esta iniciativa do Serviço de Saúde só traz benefícios. A gente sofre muita concorrência dos falsificadores, que vendem produto ruim à vontade por aí. Acho que a melhor fiscalização no setor de alimentos é fundamental, diz Andrade, lembrando que o consumidor também deve se conscientizar e só adquirir produtos com garantia de higiene e identificação da procedência
Impurezas De acordo com a professora Irene Popper, responsável pelo Laboratório de Análises de Alimentos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), os problemas mais frequentes em relação às análises de mel são adulterações do produto e alterações decorrentes de extração inadequada. Ela explica, por exemplo, que é comum a presença de restos de abelhas, que não chegam a representar riscos para a saúde humana.
Como o mel é um alimento que tem alto teor de açúcar, dificilmente vai apresentar bactérias patogênicas, que não conseguem se desenvolver neste meio. Se houver algum tipo de contaminação, certamente será por bolores e leveduras, que causam apenas mudanças nas características sensoriais do produto, ou seja, na aparência, sabor e aroma. Nada disso, porém, chega a ser prejudicial ao homem.
Irene alerta, inclusive, para um erro muito comum, que é achar que o mel cristalizado não é puro. Todo mel, depois de um tempo armazenado, tende a se cristalizar. Isto não é sinal de adulteração. Para os consumidores que não apreciam o produto desta forma, ela ensina que ele deve ser dissolvido em água morna, a uma temperatura que não ultrapasse os 45 graus centígrados. Esta é uma temperatura suportável à nossa pele. Se ultrapassar, as características do alimento serão adulteradas.
A professora observa que o mel é basicamente glicose e frutose. A não ser o fato de provocar menos cáries, a idéia de que ele seria mais saudável que o açúcar é de difícil comprovação. O que o mel tem mesmo é um sabor muito agradável, afirma. Segundo ela, aquele tipo de mel obtido a partir de xarope oferecido às abelhas como alimento, em épocas de escassez de flores, tem qualidade inferior por não possuir as mesmas características de sabor e aroma, mas não dá para afirmar que seja mais ou menos saudável.


