Josoé de CarvalhoArrendamentoFazendeiros estão arrendando parte de suas terras como forma de recuperar as pastagensA região Noroeste do Paraná é formada por 91 municípios, distribuídos em 3.510.800 hectares, o que corresponde a 18% da área total do Estado. O solo é de arenito. Estima-se que, atualmente, mais de 50% das áreas da região estão ocupadas por pastagens. O rebanho bovino ultrapassa 3,5 milhões de cabeças, ou seja, abriga mais de 40% do rebanho total do Estado. Além do boi, mandioca, milho, sorgo, algodão, laranja e café são produzidos na região. A soja também está chegando por lá. Brizantão é o capim predominante nas pastagens.
Em muitas propriedades do Noroeste do Estado, as pastagens encontram-se degradadas; em outras, a lotação de animais ainda é considerada pequena. Esse cenário atiçou a cobiça dos trabalhadores rurais sem-terra de uns anos para cá. Ocupações já são uma realidade na região. Técnicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estão de olho nas terras consideradas improdutivas.
Agrônomo Sílvio Carlos Mella diz que pelos critérios do Governo Federal a região de arenito pode ser considerada improdutiva
Os fazendeiros temem perder suas terras. O Noroeste do Estado pode se transformar num novo Pontal do Paranapanema (região do lado paulista, palco de intenso conflito agrário). A possibilidade de uma reforma agrária agita a região. ‘‘A fertilidade do solo da região Noroeste caiu’’, reconhce o agrônomo José Pedro Garcia Sá, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) em Londrina. Especialista em pastagens, Garcia Sá está preocupado com os critérios (que ele desconhece) que o Incra utiliza nas desapropriações,
Produtividade‘‘Pelos critérios de que temos conhecimento, a maioria desta região pode ser considerada improdutiva’’, informa o agrônomo de Paranavaí, Sílvio Carlos Mella, ex-pesquisador do Iapar. Mella também é arrendatário e sócio de uma empresa de orientação técnica na área de pastagens. ‘‘É que os índices ditos de produtividade são difíceis de serem atingidos’’, arrisca.
O agrônomo Carlos Mella refere-se ao fator de conversão e ao índice de lotação, tabelas do novo Imposto Territorial Rural (ITR), conforme diz a Lei 9.393/96. Ele adverte que, por essa classificação, praticamente todos os animais acabam correspondendo a 0,36 U.A. (Unidade Animal), na média. Uma fazenda de 435 hectares é tomada como exemplo pelo ex-pesquisador do Iapar. ‘‘Essa propriedade terá de ter, no mínimo, 522 U.A. pela tabela do ITR’’, argumenta.
Pela tabela, os bovinos de até dois anos terão 0,37 como fator de conversão - os acima de dois anos, 0,87. O índice de lotação será de 1,20 unidade animal por hectare. Se esse proprietário hipotético tiver dois animais por hectare, o que é considerado uma lotação boa para a região, segundo o agrônomo Carlos Mella, o seu rebanho será de 870 animais.
Desse total, 270 animais estão acima de dois anos. Pelo fator de conversão do ITR, ele terá 235 U.A. Os outros 600 animais (com menos de dois anos) vão significar 222 U.A.. A soma dará 457 U.A., o que quer dizer que essa fazenda estará com 65 U.A. abaixo da tabela do ITR. ‘‘Nesse caso, vai ser considerada improdutiva’’, salienta o agrônomo Sílvio Carlos Mella.
O agrônomo de Paranavaí defende a seguinte tabela: para bovinos de 0 a 1 ano (peso de até 200 quilos), o fator deveria ser de 0,25 U.A.; de 1 a 2 anos (animais pesando de 200 a 350 quilos), índice de 0,70 U.A.; para bovinos de 2 a 3 anos (350 a 450 quilos), índice de 0,80 U.A.; e para animais acima de 3 anos, índice de 1,00 U.A..
‘‘Caso contrário, toda essa área da região de arenito corre o risco de ser declarada improdutiva, apesar de ser considerada nobre para a pecuária’’, atesta Sílvio Carllos Mella. ‘‘Os índices deveriam ser diferenciados por regiões e até por propriedade’’, acrescenta o agrônomo do Iapar, José Pedro Garcia Sá.
ImpostoO ITR foi alterado no ano passado, para forçar os proprietários rurais a tornarem suas propriedades produtivas. A lei prevê taxação elevada para as áreas improdutivas. Se a fazenda com mais de 2.066 alqueires não estiver produzindo nada, por exemplo, o proprietário pagará 20% do valor da propriedade, a título de imposto. Se o tamanho da propriedade for entre 413 e 2.066 alqueires, a taxação será de 8,6%.
Bóia-fria trabalhando na colheita de semente de capim em Paranavaí. Brizantão é o capim mais utilizado nas pastagens
ArrendamentoMuitos fazendeiros estão arrendando parte de suas propriedades, para plantações de mandioca, principalmente, como forma de recuperar as pastagens. ‘‘Se a lavoura for bem orientada, quando ela sai, o pasto volta a melhorar’’, informa o agrônomo Carlos Mella.
O engenheiro civil José Paulo da Silva Braga deixou a profissão de lado para se dedicar à administração das três propriedades da família, localizadas em São João do Caiuá, município vizinho de Paranavaí. Juntas, as propriedades possuem 470 alqueires e um rebanho de 2.034 animais. Em cinco anos, de 315 alqueires foram arrendados para a reforma de pasto.
Os primeiros resultados dessa reengenharia nas três fazendas começam a surgir. Antes, comenta Silva Braga, eram abatidos em torno de 500 animais por ano. ‘‘Atualmente, praticamente dobramos este número’’, comemora.

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