Redes buscam herdeiros para agricultura familiar
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sábado, 10 de dezembro de 2005
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
O que você vai ser quando crescer? Se no contexto urbano a famosa pergunta é motivada por mera curiosidade, no campo ela é determinante. Da resposta dos filhos de pequenos produtores, depende a sobrevivência ou extinção de propriedades familiares. Quem, afinal, irá herdá-las se a irresistível propaganda das cidades continuar atraindo a juventude rural?
A sucessão tornou-se uma das grandes preocupações das Redes de Referência. Os esforços para garantir a modernização e a sustentabilidade da agricultura familiar a longo prazo estão intimamente ligados ao desafio de manter os jovens no campo. Resultados positivos podem ser observados em algumas propriedades assistidas pela Rede; em outras, a lacuna de herdeiros parece ser uma tendência irreversível.
A história de Nelson Bianchini, 55, e Desolina, 54, casal de agricultores de Ibiporã (14 km a leste de Londrina), é emblemática. Dos quatro filhos que tiveram - Valéria, 33, Vânia, 31, Vanderson, 29 e Viviane, 19 - nenhum demonstra interesse em assumir o sítio Rondon. As duas mais velhas casaram-se e mudaram para a cidade; o varão trabalha em Londrina. Somente a caçula ainda mora com os pais.
É justamente em Viviane que dona Desolina deposita, por vias indiretas, a última esperança de ver a propriedade continuar na família. ''A mais nova está pra casar com o vizinho. Mas só Deus sabe o que eles vão decidir amanhã ou depois'', diz, sob o olhar descrente do marido. Seja qual for a decisão, é bom que não demore: o casal está cansado e já avisou que pretende se aposentar em breve.
Aos 50 anos, o agricultor Zeferino Santin, de Vitorino (14 km a oeste de Pato Branco), antecipa-se à debandada dos filhos. Prevendo que, num futuro próximo, ele e dona Marília, 47, poderão tocar sem ajuda a propriedade de 29 hectares, seo Zeferino vem tomando providências para facilitar o trabalho, como a instalação de um curral de fechamento automático. ''Sei que existe o risco de ficarmos sozinhos. Eu não obrigo filho a ficar. Tem que gostar do que faz'', sustenta.
Se depender dos atuais planos dos filhos do casal, a sucessão está garantida. Cristiane, 23, já se deparou com a chance de uma vida urbana, mas não quis abandonar o campo. Formada em Letras, ela leciona em duas cidades da região e continua morando com os pais. ''Ainda assim dá para ajudar no sítio. Não me sinto atraída pela cidade'', afirma. Cursando o Ensino Médio, César, 16, vislumbra uma conciliação entre os estudos e a vida rural. ''Minha tendência é ficar. Penso em fazer uma faculdade, de Agronomia, por exemplo, que possa ser útil para ajudar aqui na propriedade''.
A idéia de César encontra respaldo em exemplos da própria Rede. O avanço na formação escolar, que outrora implicava na saída definitiva dos jovens no campo, está se revelando uma boa fórmula para manter a sucessão e modernizar a agricultura familiar. Em Toledo, o filho e a nora de Ivo Lawish, 63, abraçaram as atividades da propriedade que se tornou uma das mais prósperas dentre as visitadas na excursão.
Carlos, 31, está estudando Agronomia. A esposa, Elaine, 25, fez curso de empreendedor rural e teve seu projeto sobre suinocultura classificado entre os primeiros da turma. Juntos, eles conseguiram montar um minilaboratório de inseminação artificial no próprio sítio, há cerca de um mês, e não dependem mais de empresas particulares. O número de matrizes suínas passou de 90 para 180 em cinco anos, passando a responder pelo maior rendimento da propriedade.
Percebendo que uma boa formação para os jovens pode beneficiar toda a família, agricultores como seo Izaías e dona Aparecida Molina, de Cruzeiro do Sul, não apenas incentivam como investem dinheiro da propriedade no estudo dos filhos. ''A gente tem um gasto grande com a faculdade da menina, mas vale a pena. No primeiro ano pagamos tudinho, agora são R$370,00 por mês porque ela ganhou bolsa'', conta o pai de Denise, 22. Ela, por sua vez, anuncia que pretende aplicar o curso de Nutrição nas hortas da família.


