Recurso necessário à boa produção
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de agosto de 1997
Silvana Leão 
Dorico da SilvaAnáliseNilson Ladeia: Tão importante quanto a análise de solo, é a sua interpretação por um técnicoFoi-se o tempo em que a aplicação de calcário era preocupação apenas daqueles que plantavam nas regiões consideradas menos férteis do Estado. O mal preparo do solo, a falta de rotação de culturas e o uso incorreto de adubos transformaram a maioria das propriedades em áreas carentes de elementos nutritivos, incapazes de apresentar a mesma produtividade de anos atrás.
Esta realidade vem chamando a atenção inclusive das autoridades, que hoje vêem no calcário um insumo básico para a boa produção agrícola. O Paraná, onde atualmente a maioria dos solos apresenta altos índices de acidez, já possui o Programa Mutirão do Calcário, que subsidia o produto para pequenos e médios agricultores. Na semana passada foi lançado o projeto Calcário para Londrina, que permitirá o acesso do produtor local ao insumo, a custo reduzido
A iniciativa pretende atender todos os agricultores, independentemente do tamanho da propriedade. Segundo o secretário da Agricultura e do Abastecimento do município, Samir Cury, Londrina possui cerca de 3,8 mil produtores rurais, responsáveis por uma demanda de 120 mil toneladas de calcário. Pelo projeto, os interessados em adquirir o insumo terão descontos entre 10 e 12% no preço, estipulado em R$ 18,00 a tonelada (calcário dolomítico) e R$ 21,00/tonelada (calcário calcítico).
Marcos BorgesAplicação de calcário para a safra 97/98 em Cambé, Norte do Paraná
Para produzir maisExtraído de rochas ricas em carbonato de cálcio e magnésio, o calcário tem a função, basicamente, de corrigir a acidez do solo, diretamente ligada à capacidade de produção. A acidez impede a absorção de nutrientes essenciais ao desenvolvimento da planta, resume o agrônomo do escritório local da Emater em Londrina, Nilson Ladeia. Para reforçar a importância da calagem, feita preferencialmente 90 dias antes do plantio, ele lembra que nem os adubos respondem satisfatoriamente se o solo estiver com o pH baixo. Ao contrário, a adubação pode até agravar a acidez, observa.
Para detectar o problema, o produtor deve providenciar a análise de solo frequentemente - o ideal é a cada dois anos. A análise pode ser feita por órgãos de pesquisa, como o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), ou por empresas particulares. O preço de cada análise está em torno de R$ 12,00 e, dependendo do tamanho da propriedade, podem ser necessárias mais de uma.
O recomendável é que seja feita uma análise em cada lote de 10 hectares (colhendo-se, em média, uma amostra por hectare). Em algumas propriedades, como as localizadas na região Sul do município, que são áreas de transição de solo e cheias de manchas, a coleta das amostras deve ser feita a partir de áreas homogêneas. A propriedade deve ser dividida em talhões, e em cada um é feita uma análise, afirma o agrônomo.
Segundo ele, mesmo as áreas ocupadas por café podem necessitar de correção. Estes solos, embora não sejam removidos com frequência, recebem grande quantidade de adubo nitrogenado, causando acidez, explica.
Sem errosNilson Ladeia lembra, porém, que tão importante quanto fazer a análise do solo, é procurar a assistência técnica para a interpretar corretamente e prescrever a quantidade correta de calcário, quando este realmente for necessário. Alguns produtores fazem calagem todo ano, acreditando que estão beneficiando a terra, quando na verdade estão causando um acúmulo desnecessário e prejudicial.
Um dos fatores que definem a quantidade de calcário a ser utilizada (dependendo do local, podem ser necessárias de quatro a sete toneladas) é a sua qualidade, determinada principalmente pelo seu teor, tempo que leva para fazer efeito no solo e tipo de elementos que diminuem a acidez. Esta qualidade é medida por um índice de porcentagem chamado Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT).
Pela legislação atual existem quatro faixas de PRNT para efeito de classificação e comercialização de calcário: faixa A, com PRNT entre 45 e 60%; faixa B, com PRNT entre 60,1 e 75%; faixa C, com PRNT entre 75,1 e 90%; e faixa D, com PRNT maior que 90%. O tipo de calcário mais indicado, segundo Nilson Ladeia, é o que se enquadra na faixa C. O produtor deve conhecer esta classificação e tomar cuidado na hora de comprar o produto, recomenda.
Recurso finitoO agronômo lembra que existe uma diferenciação de calcário também em relação aos teores de cálcio. Aquele com teor mais elevado é o calcítico e o de baixo teor de cálcio é o dolomítico, e devem ser recomendados de acordo com o tipo de solo.
Embora ainda exista em grande quantidade (no Paraná, por exemplo, as fontes estão concentradas na região de Castro, no Sul do Estado), o calcário é um recurso que vem da Natureza e obtido através do extrativismo. É, portanto, um recurso finito. Na possibilidade de um dia faltar, o agrônomo da Emater acredita que a única saída seria o bom manejo de solo, de forma que fosse reposta e mantida a matéria orgânica, uma das mais eficientes armas contra a acidez.


