Os custos de produção da pecuária subiram 10,10% no ano passado e para desespero dos produtores, o preço pago pelo gado caiu 0,03% no mesmo período. Hoje, a arroba do boi gordo está sendo comercializada, em média, a R$ 54,00 em todo o País. No Paraná, o valor é ainda menor, chegando a R$ 50,00/arroba.
A queda nos preços teve início há pelo menos cinco anos, quando o número de fêmeas disponíveis no mercado se equiparou à quantidade de machos. ''Hoje, o preço só não esta mais deprimido devido à exportação'', analisa o agropecuarista José Eduardo de Andrade Vieira. No ano passado, o Brasil exportou US$ 2,5 bilhões, US$ 800 milhões a mais que o valor exportado em 2003.
José Eduardo foi senador, Ministro da Indústria e Comércio no governo Itamar Franco e Ministro da Agricultura no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Ele conta que os baixos preços praticados pelo mercado são reflexos do fim da expansão agropecuária, iniciada na década de 70. ''As duas últimas grandes geadas que ocorreram no Paraná levaram os cafeicultores do Estado a migrar para o norte do Brasil. Lá, eles ocuparam principalmente a região de Rondônia, onde iniciaram o cultivo de café robusta. Com a queda nos preços do café e a falta de infra-estrutura na região, os cafeicultores resolveram mudar de atividade, investindo na pecuária'', lembra.
Seguindo os passos dos paranaenses, os gaúchos ocuparam o Mato Grosso e o sul do Pará e desenvolveram grandes projetos agropecuários que atingiram sua maturação no final da década de 1990. ''Eu tinha fazenda no Pará e só vendia macho. Todo ano aumentava a área de pastagem em até 2 mil hectares e todas as fêmeas, boas e ruins, eu segurava, para ir ocupando aquela área. Quando ocupei todo o espaço que dispunha, comecei a vender as fêmeas. O mesmo aconteceu com os outros agropecuaristas'', explica Vieira.
No início dos projetos, a média de abate de matrizes girava em torno de 10%; atualmente esse número já supera os 50%. Este quadro não deve ser sazonal, segundo o ex-ministro. A recuperação dos preços dependerá do crescimento da economia, do poder aquisitivo e das exportações. ''A exportação vai continuar atingindo bons patamares, pois o Brasil tem condições favoráveis, qualidade e preços baixos para competir no mercado externo. Mas o governo tem de estar atento à sanidade, porque os países consumidores vão usar qualquer foco de aftosa para boicotar nossas exportações e impor barreiras'', alerta.
Reduzir custos de produção e agregar valor ao produto final com o intuito de conquistar novos nichos de mercado também são possíveis soluções para a recuperação dos preços, já que não deverá acontecer um novo ciclo de expansão agropecuária nos próximos anos. ''Acho que ainda há espaço para expansão, mas não no mesmo volume de terras como ocorreu nessas duas últimas décadas. Além disso, o governo deve criar obstáculos para a devastação da Amazônia, última fronteira agrícola do País'', declara.
José Eduardo acredita que investir na pecuária de leite pode resolver os problemas dos pecuaristas a curto prazo. E o processo não é custoso, pois o produtor precisa dispor de apenas 10% do rebanho - de 30 a 40 vacas - para produzir até 600 litros de leite por dia. ''O setor de lácteos está exportando, o preço ao produtor é compensatório e o pecuarista diversifica dentro do mesmo segmento e passa a ter uma renda mensal significativa, que paga os custos da propriedade'', calcula.

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