Recuo do milho favorece praga
A redução do plantio de culturas em rotação, causada pelo aumento da área de soja e diminuição do plantio de milho, trouxe consequências sérias na última safra: uma praga que já estava sob controle, o bicudo-da-soja (Sternechus subsignatus, atacou lavouras de produtores nas regiões Sudoeste, Sul e Noroeste do Estado.
Só no Sul do Paraná, a incidência da praga foi observada em aproximadamente 280 mil hectares, de 40 municípios. Dessa área infestada, 84 ha sofreram danos econômicos, e segundo cálculos dos técnicos de cooperativas das regiões de Guarapuava, Ponta Grossa e Pato Branco, as perdas chegaram a R$9,6 milhões.
ControleConhecido também como tamanduá ou cascudo-da-soja, o inseto causa sérios danos à cultura, podendo levar a perdas drásticas. A pesquisadora da Área de Entomologia da Embrapa-Soja, Clara Beatriz Hoffmann-Campo, pesquisa a praga há 13 anos. Ela explica que a planta sofre com o ataque do bicudo adulto e também das larvas.
Para se alimentar, o bicudo raspa o caule da planta e desfia os tecidos. As larvas instalam-se no interior do caule, onde formam galhas, dificultando a circulação da seiva. O ataque da praga deixa as plantas debilitadas e muitas acabam morrendo. Se, no prazo de aproximadamente quinze dias após o plantio da soja, for encontrado um bicudo adulto por metro, há necessidade de controle do inseto, explica Clara Beatriz.
O bicudo-da-soja é uma praga de difícil controle. Segundo Clara Beatriz Hoffmann-Campo, o ciclo de vida do inseto favorece a infestação, porque coincide exatamente com o ciclo da soja. O inseto tem uma geração por ano, que começa em outubro com o surgimento dos primeiros adultos. É justamente a época recomendada para o plantio da soja, explica a pesquisadora. O maior número de insetos é encontrado no final do mês de dezembro. A partir de janeiro as larvas do bicudo começam a hibernar no solo. Elas permanecem assim até outubro, quando começa a nova geração, diz a pesquisadora.
O controle químico da praga nem sempre é eficaz. Isto se deve ao comportamento do bicudo adulto. Clara Beatriz observa que durante o dia eles permanecem nas partes baixas das plantas, sendo protegidos pelas folhas. O horário ideal para aplicação do inseticida, para que tenha algum efeito, é no período noturno, das 22 às 2 horass, quando os adultos estão ativos e ficam nas partes superiores da planta.
RotaçãoPorém, a forma mais eficaz de controle do bicudo-da-soja é a rotação de culturas. O produtor deve destinar as partes infestadas ao cultivo de plantas não-hospedeiras como o milho, girassol ou sorgo. A rotação é imprescindível. A adoção dessa prática reduz a população do inseto na área e também proporciona melhor rendimento para a soja da safra seguinte, diz Clara.
A pesquisadora ressalva que essa prática não deve ser adotada isoladamente. Segundo ela é necessário fazer um planejamento, envolvendo assistência técnica e produtores da região. Se for uma prática isolada, a praga pode sair da área de rotação e se instalar na lavoura de soja da propriedade vizinha. Desta forma, os ataques não são controlados, explica.
RecomendaçãoAntes de planejar o cultivo da safra de verão, o produtor que teve problemas com o bicudo na safra anterior, deve avaliar o grau de infestação da área a ser cultivada. Esta avaliação deve ser feita no período de entressafra, de maio a setembro. Através de técnicas de amostragem, o produtor pode prever os danos, e desssa forma, fazer um melhor planejamento agrícola. Se em cada amostragem forem encontradas de três a seis larvas, uma ou duas podem atingir o estádio adulto, o que pode provocar perdas de 7 a 14 sacas por hectare. Neste caso, é recomendada a rotação.
Clara Beatriz recomenda também outros cuidados: um deles é preparar uma bordadura de 25 metros ao redor da área em rotação. Essa bordadura deve ser feita comm planta hospedeira, como o feijão, lab-lab ou a própria soja. A área funciona como uma isca para a praga, que vai concentrar-se na bordadura, facilitando o controle.
A utilização de planta-isca pode ser associada ao controle químico ou mecânico. Pode-se, por exemplo, eliminar as larvas presentes nas plantas com roçadeiras, antes delas entrarem em hibernação, afirma. Outra alternativa para evitar o ataque da praga é antecipar a época de semeadura. Assim, quando os insetos estiverem adultos, a soja estará mais desenvolvida e sofrerá menos com o ataque.
A pesquisadora lembra que lavouras dos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina também tiveram aumento de infestação pelo bicudo-da-soja. Clara Beatriz está elaborando uma publicação sobre o assunto, em trabalho conjunto com o pesquisador da Fundação Centro de Experimetnação e Pesquisa (Fundacep) da Federação das Cooperativas Brasileiras de Trigo e Soja (Fecotrigo), Mauro Tadeu Braga da Silva.





