Reciclar para produzir (Conclusão)
Reciclar para produzir (Conclusão)
Cícero Bley Jr.
Comprovando a contribuição de práticas culturais adequadas para atenuar as variações da temperatura do solo, fator intimamente ligado à radiação, Vieira (1983) demonstrou que o solo na região de Ponta Grossa (PR), aos 3 cm de profundidade, sob plantio convencional, passa da temperatura de 23ºC às 8 h, para 43ºC às 14 h, enquanto submetido ao plantio direto na palha a variação, nos mesmos horários, vai de 19ºC a 36ºC e com cobertura verde a amplitude é de 21 a 25ºC.
Os técnicos da extensão rural dos Estados do Sul sabem que as folhas do milho formam cartuchos, quando a temperatura do solo bate nos 38ºC. Quem planta sabe que as folhas da soja viram a partir das dez horas, as do feijoeiro enrolam, as da abóbora murcham, indicando os efeitos da temperatura tanto na área foliar quanto na zona das raízes. Essas deformações indicam comprometimentos no metabolismo das plantas e, sem dúvida, influem na produtividade final da lavoura.
Por outro lado, os sintomas nos seres que a gente vê, as plantas, indicam impactos sobre os que a gente não vê, os microorganismos do solo, que não resistem por algumas horas a temperaturas acima de 40ºC. A morte ou simplesmente a paralisação da atividade microbiana interrompe os ciclos biogeoquímicos de transformação de minerais em nutrientes para as plantas.
A radiação solar varia também de acordo com as estações do ano. No verão, mais perto do Sol, recebemos mais radiação solar; no inverno menos. No periélio a superfície da Terra recebe 7% a mais de energia solar do que no afélio (Ayoade, 1991). É ela que determina a temperatura ambiente, que exerce grande influência na velocidade de degradação de compostos orgânicos (Caldeira e Rodella, 1997). Quanto mais calor, maior é essa velocidade.
A temperatura do solo influencia diretamente o clima da zona baixa da atmosfera, pois se trata de um elemento microclimático de grande valor na formação do próprio solo, influindo na aeração do mesmo, na desintegração do material original, na retenção de água, na movimentação de colóides, no metabolismo e no desenvolvimento dos organismos que vivem ou passam parte do ciclo no seu interior; na germinação das sementes, na atividade funcional das raízes, na velocidade e duração do crescimento das plantas, na ocorrência e severidade de doenças nas plantas, etc. (Caramori et al., 1985; Mota, 1985).
Assim, quanto mais estável for a temperatura ao nível do solo, menor será o estresse das culturas, aumentando a resistência natural das plantas a pragas e doenças, proporcionando condições de crescimento e desenvolvimento mais favoráveis.
Uma das técnicas utilizadas para avaliar a velocidade de decomposição de materiais orgânicos do solo é a da quantificação do CO2 desprendido no processo (Eira e Paccola, 1980). Na medida que ocorre aumento da temperatura, até certos níveis, desencadeia maior desprendimento de CO2 (Caldeira e Rodella, 1997).
O desprendimento do CO2 por efeito da temperatura, comprovado cientificamente em laboratório, e seu arraste para a atmosfera, satisfazem plenamente o conceito técnico de erosão que significa desprendimento e transporte de partículas do solo. Mais uma forte razão para que o termo erosão solar, possa ser incorporado como conceito orientador da agricultura nos trópicos.
De um modo geral, a faixa de 30 a 35ºC é tida como a de máxima velocidade de decomposição de materiais orgânicos (Parr, 1975). A variação da temperatura média no verão dos trópicos do Brasil situa-se nesta faixa, o que sugere que a atividade microbiana da superfície do solo encontra seu auge de consumo de alimentos, para em seguida entrar em colapso pelo excesso de temperatura.
Assim, é possível concluir que:
1 - a reserva de matéria orgânica dos solos tropicais, desde que não estejam mais em equilíbrio (ecossistemas em clímax e intactos), tende a se exaurir na medida em que não é reposta e 2 - a exaustão das reservas orgânicas ocorre em maior velocidade nos trópicos do que em regiões temperadas e frias.
Portanto, para dar manutenção à biologia dos solos e consequentemente sustentação à produção agrícola em solos tropicais e subtropicais, é estratégico considerar todas as possibilidades de obtenção de matéria orgânica e sua reciclagem como alimento dos solos.
Sejam aquelas geradas in situ, como as palhadas e restevas de lavouras em plantio direto e rotações de culturas, sejam de outras fontes, ou atividades complementares como a integração agropecuária, não só visando a diversificação da renda da propriedade, mas a obtenção do estágio da economia cíclica, com a utilização dos dejetos (perdas) da pecuária, na manutenção dos estoques de matéria orgânica dos solos, como base para aumento da produtividade.
Também é necessário considerar, além dos limites da propriedade, as possibilidades de recuperação de materiais orgânicos como os resíduos industriais orgânicos, lixo urbano, esgotos urbanos, via de regra poluentes indesejáveis, mas que são macrofontes de matéria orgânica de alto valor.
E aqui o terceiro erro.
Toda a literatura técnica internacional, reproduzida entre nós sem contestação, para efeito de valorização de materiais orgânicos, os compara segundo os valores de N, P e K que contêm. Esses conteúdos, no caso dos resíduos orgânicos, são em geral muito baixos, o que induz o produtor de resíduos orgânicos a não se motivar para o necessário tratamento, pois por mais que se faça para estabilizá-los, em termos de N,P e K, a valorização será sempre baixa.
Radicalizando, interessa tanto a medição dos nutrientes de plantas para a determinação do valor dos compostos orgânicos, quanto interessaria a mesma medição para a determinação do valor do calcário na agricultura. Como condicionador dos solos o calcário é medido pelo seu poder neutralizador - PRNT -, nunca pelos níveis de N,P e K que possa conter.
Analogamente, quanto aos materiais orgânicos interessa saber seu potencial de biodegradabilidade (sólidos voláteis/sólidos totais), relações como C/N, presença de ácidos húmicos e outros indicadores de valor. Para efeitos práticos é inútil se questionar os níveis de N,P e K, pois esses são nutrientes das plantas. A nutrição dos seres vivos dos solos se faz com carbono e, quanto a este, os materiais orgânicos são absolutamente ricos.
Vivemos um tempo de rupturas de paradigmas e entre os maiores esforços da Humanidade está a geração de seus alimentos, e para isto é fundamental a eficiência agrícola. Contudo, não há como produzir com efiência e continuidade rompendo as leis naturais. Uma nova revolução verde está a caminho, desta vez sem heróis, sem prêmios nobéis, pois a força desta revolução não vem dos interesses da indústria dos insumos modernos, mas do produtor rural anônimo, que por sobrevivência descobre as infinitas potencialidades que existem nas relações da natureza ao seu redor, na vida silenciosa dos seus solos, base de sua matriz de produção.
O autor é engenheiro-agrônomo. Foi presidente da Superintendência de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Surehma, antecessora do IAP).





