Reciclar para produzir
Cícero Bley Jr.
Durante a economia especulativa, tempos da ciranda financeira, as ineficiências iam para baixo do tapete; era possível escondê-las. Perdas operacionais eram compensadas com os ganhos financeiros, CDB, RDB, over, etc.
A economia estável, por seu turno, desnuda os sistemas produtivos; os vazamentos se evidenciam e, se não corrigidos, a inviabilidade é o caminho anunciado.
As atividades agropecuárias implantadas na Natureza e por esta razão não equacionáveis em rotinas matemáticas como as da indústria, necessitam de inúmeros ajustes para alcançar a viabilidade e minimizar os riscos. Assuntos até então não considerados, na atualidade podem significar progredir, ou sucumbir.
De toda a matriz da produção agrícola, examinemos sua base, o solo. As estatísticas aterradoras sobre perdas físicas de solo no mundo revelam, que todos os anos, milhões de toneladas de terra fértil são transportadas pelos rios. Essas informações vêm produzindo reações em quem toma consciência da sua gravidade.
Evoluímos muito, com a adoção de práticas de conservação dos solos e de controle da erosão, como o plantio direto na palha e o planejamento em micro-bacias. Hoje em dia, perdem solo para as chuvas, o supra-sumo do relaxo, da ignorância, personificados em produtores ainda orientados para a agricultura nômade, de rapina, dos tempos em que terras agrícolas eram disponíveis e não tinham valor de aquisição.
Por outro lado, não estamos acostumados a considerar que outros comprometimentos da capacidade produtiva dos solos continuam ocorrendo mesmo quando atenuadas as perdas físicas. Damos pouca atenção ao que acontece com a sua atividade biológica, por exemplo.
Os solos não são meros suportes físicos para as plantas. E os seres que neles vivem, numerosos e diversificados, têm papel fundamental em processos essenciais como o da nutrição das plantas, do regime das águas, da estabilidade dos agregados e outros.
A disponibilidade de alimentos e sua qualidade é a condição básica para a existência de qualquer tipo de vida, e no caso dos solos todos os seres têm como base de nutrição, além do oxigênio, o carbono contido na matéria orgânica dos resíduos animais e vegetais que ali se acumulam.
A Natureza recicla todo o carbono disponível, assim como recicla também os outros elementos (N, P, K e micronutrientes) através dos ciclos biogeoquímicos (Shaw, 1958).
Os compostos orgânicos apresentam grande variação em relação a sua resistência às ações dos microorganismos. Em ordem crescente de resistência têm-se: açúcares, amido e proteínas simples; proteínas brutas, hemicelulose, celulose, lignina, gorduras, ceras, etc. (Brady, 1967; Tibau, 1986). Para cada estágio da decomposição dos compostos orgânicos, existe um grupo especializado e predominante de seres (Peixoto, 1988).
Como resultado de sua nutrição, os seres do solo liberam gás carbônico e substâncias húmicas, dentre elas nutrientes na forma orgânica assimilável pelas plantas (N,P, K, S, micros). Em sentido inverso isto significa que, sem a atividade microbiana, os nutrientes colocados no solo na forma de fertilizantes minerais não seriam utilizados pelas plantas, permanecendo imóveis e se perdendo nos movimentos das águas dos solos (Shawn,1958).
O esgotamento dos estoques de alimentos se dá em alta velocidade e o balanço de disponibilidade logo fica deficitário. Entre poucas semanas, de 2 ou 3 meses, 60 a 85% do carbono são devolvidos para a atmosfera como gás (CO2 ), dependendo da resistência à decomposição dos materiais orgânicos atacados (relação C/N).
Em torno de 15 a 30% do carbono permanecem no primeiro ano, parte em corpos resistentes, parte em novo húmus. Cerca de 70% do carbono que entra na atmosfera como CO2 são atribuídos ao metabolismo microbiano (Voss, 1987).
A agricultura historicamente tem contribuído para o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera, com relações diretas sobre o Efeito Estufa, com cerca de 2/3 do carbono dos resíduos orgânicos disponíveis na Natureza (LAL, 1.995). Continua no próximo número.
Não bastasse a necessidade de volume de matéria orgânica para abastecer seres microscópicos, outros fatores ainda contribuem para o aumento do déficit, todos eles ligados a erros humanos no trato com o solo, na adoção e na condução de práticas agrícolas, motivados pala falta de informações técnicas e de preparo para fazer agricultura em clima tropical.
Um dos erros Sendo o oxigênio consumido junto com os compostos orgânicos, quanto mais oxigênio se dá às condições do solo, mais rápido será o consumo da matéria orgânica. Quer dizer, as técnicas de aração e gradagem, que assimilamos dos nossos colonizadores, utilizadas em seus países para acelerar o descongelamento dos solos após invernos rigorosos, quando aplicadas nos solos tropicais aceleram a atividade microbiana, o que por sua vez aumenta o consumo da matéria orgânica disponível. Isto para não falar de outros efeitos conhecidos, como o aumento da densidade do solo, que determina maior escorrimento superficial das águas de chuva, causa da erosão hídrica.
Outro erroOriginado também pela desconsideração com as nossas condições tropicais, diz respeito aos efeitos dos fenômenos solares, que à luz da ciência do solo desenvolvida em países de clima frio e que inspira e baliza toda a nossa pedologia, não passam de meros coadjuvantes da erosão hídrica e eólica.
A intensidade dos impactos do Sol sobre os solos tropicais é tão importante para a condução da agricultura, que exige uma nova abordagem técnica, que até poderia ser melhor identificada, talvez por um título específico, como erosão solar, para que sua importância em relação às já conhecidas erosões hídrica e eólica, não continue a ser minimizada.
Não há como fazer agricultura nos trópicos sem dar ênfase aos fenômenos da erosão solar sofrida pelos solos destas regiões. A radiação solar, principal fonte de energia do Planeta, tem intensidade variável em relação à latitude (Martyn,1992). Na Europa Central, Alemanha e Dinamarca, em uma latitude média de 47 a 58º N, a intensidade de radiação é de 3349 a 4186 MJ/m2; na Europa Oriental, França, Bélgica e Luxemburgo, latitude 41º 20’ a 53º 30’, a intensidade de radiação ocorre no intervalo 3349 a 5024 MJ/m2 e no Brasil, com latitude entre 5º N a 34º S, 5024 a 6699 MJ/m2
A variação da latitude faz alterar o grau de exposição das diferentes regiões à luz solar. Portanto, é importante considerar o ângulo de incidência dos raios solares sobre os solos em que se trabalha. Em um país continental como o Brasil, da Linha do Equador até as imediações do Trópico de Capricórnio, a incidência dos raios solares é algo a ser considerado ao se movimentar o solo, sendo crítica nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, que recebem praticamente o dobro da radiação solar do que os países que orientam a nossa pesquisa agrícola e seguramente mais de 1/3 da radiação dos campos do Rio Grande do Sul, por exemplo.
O ângulo zenital, que é o ângulo entre o zênite local e a posição do Sol, é o fator principal que influencia a quantidade de energia que incide sobre uma superfície horizontal, no caso os solos agrícolas. Logo, quanto mais perpendicular à superfície estiver o Sol, maior a quantidade de energia que alcança o solo. Como tudo, bom sob alguns aspectos e mau sob outros. Continua no próximo número.
O autor é engenheiro-agrônomo. Foi presidente da Superintendência de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Surehma, antecessora do IAP).

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